quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Charles Gavin Em Primeira Pessoa: Uma Noite Com O Maior Baterista Do Brasil

O evento realizado pelo Sesc 14 Bis contou com a presença de diversos fãs em uma conversa intimista, rica em detalhes e muito bom humor.


Por Alessandro Costa

12/12/2024


Com baú repleto de histórias interessantes, Charles Gavin fez um passeio por toda a sua carreira.

Fonte: autor




A série “Em Primeira Pessoa”, realizada pelo Sesc São Paulo, consiste em conversas com profissionais e artistas do campo da cultura, trazendo autores, músicos e muitas outras personalidades que proporcionam uma positiva diferença artística no Brasil.

O evento da quarta-feira, 4 de dezembro, contou com a presença de Charles Gavin, o eterno baterista dos Titãs, que também desempenha um importante trabalho de produção, pesquisa e curadoria musical, além de realizar outras tarefas, como apresentador.


Gavin chegou ao Sesc 14 Bis, localizado em São Paulo, trazendo uma mochila e um livro. A sala cheia de admiradores saudou o músico que recebeu e devolveu o carinho, já começando a conversa, mediada pelo músico Danilo Moraes, com uma homenagem a Marcelo Fromer, guitarrista dos Titãs falecido em junho de 2001, que completaria 63 anos em 3 de dezembro, lendo um trecho do livro “Você Tem Fome De Quê?” escrito pelo saudoso guitarrista, onde mistura receitas culinárias com a história de diversas canções dos Titãs. Na passagem lida pelo baterista, Fromer comenta como havia sido o, até então, último show de Arnaldo Antunes com os Titãs, em dezembro de 1992, já emendando no surgimento da canção “A Verdadeira Mary Poppins”, gravada no disco “Titanomaquia”, lançado em 1993 e sendo o primeiro registro dos Titãs sem o vocalista.


A conversa continuou com Charles lembrando de como se interessou pela bateria, as primeiras experiências com percussão no colégio, sendo importante ressaltar que o baterista estudou em escolas públicas, passando pela bateria caseira improvisada nos móveis de casa, que rendeu um flagrante divertido dos pais, Laurinda e João, enquanto o futuro baterista tocava de maneira compenetrada.


Santa Gang, Ira!, Cabine C, Jetsons, RPM e Titãs

Foi no almoço do natal de 1984, que Charles foi convidado para entrar para os Titãs.

Fonte: autor.


Charles também falou sobre as primeiras bandas, como o Santa Gang, depois sobre sua passagem fundamental pelo Ira!, banda paulistana que fez história na música brasileira, onde tocou de 1982 até meados de 1984, gravando diversas demos e o primeiro compacto do grupo, que tem “Pobre Paulista” no lado A e “Gritos Na Multidão” no lado B.


E depois, o músico falou sobre o período em que tocou com o RPM, banda que seria um fenômeno na música brasileira durante os anos de 1985 e 1986, vendendo mais de 1 milhão de cópias do disco “Rádio Pirata Ao Vivo”. Neste período em que Charles tocou com Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Fernando Deluqui, eles não fizeram shows, apenas ensaiavam e gravaram demos, uma vez que já havia a possibilidade de gravar o primeiro LP.


Além do Ira! E do RPM, Gavin tocou com o Cabine C, que em sua primeira formação contou com Edgard Scandurra na guitarra, Ricardo Gaspa no baixo, Wania Forghieri nos teclados e o poeta Ciro Pessoa, falecido em maio de 2020, nos vocais. As atividades da banda duraram cerca de 6 meses em 1984, até que se diluiu, e em 1986, Ciro reformou o grupo, dessa vez apenas com mulheres em sua formação.


É essencial ressaltar que, Charles Gavin, Branco Mello (um dos vocalista dos Titãs) e Ciro Pessoa, tiveram uma outra banda chamada Jetsons, que não fez nenhum show, porém ensaiava e escrevia canções de maneira intensa.


Todos esses assuntos foram relatados de maneira extremamente rica e detalhada por Charles, que se lembra exatamente da sequência cronológica dos eventos até a sua entrada nos Titãs, que aconteceu no natal de 1984. Nos Titãs, Gavin gravou discos memoráveis para a música brasileira, como “Cabeça Dinossauro” de 1986, “Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas de 1987, “Go Back” de 1988 e “Õ Blésq Blom” de 1989, bem como cabe uma menção essencial ao “Acústico MTV” de 1997, que vendeu mais de 1 milhão de cópias e rendeu uma gigantesca turnê.


Em 2010, Charles se desliga dos Titãs, depois de 25 anos de estrada. O cansaço físico e mental foi a principal causa do afastamento, que pegou todos os admiradores dos Titãs de surpresa, que receberam a notícia, que já circulava como boato nos grupos de fãs, com enorme tristeza.


Panamericana, Primavera Nos Dentes, Sete Cabeças e Pop 3

Charles Gavin contou tudo sobre os seus projetos após o desligamento dos Titãs.

Fonte: autor.


E como não poderia deixar de ser, Gavin falou detalhadamente sobre seus outros projetos após o desligamento dos Titãs, como a super banda Panamericana, que contava com Dado Villa Lobos (Legião Urbana) na guitarra, Dé Palmeira (Barão Vermelho) no baixo e Toni Platão nos vocais. O grupo fazia versões de clássicos do Rock argentino e uruguaio, chegando a lançar um álbum, o “Sur”.

Seus projetos mais recentes como a banda Sete Cabeças, que toca clássicos de Rita Lee, Cássia Eller e Titãs em formato acústico, além do mais novo de todos, o Pop 3, que apresenta George Israel (Kid Abelha) no sax e vocais, e Henrique Portugal (Skank) nos teclados e vocais, tocando um repertório formado por canções do Skank, Kid Abelha e Cazuza.


Uma proximidade muito especial com Charles Gavin


A trajetória inspiradora de Charles Gavin foi acompanhada com máxima atenção pelo público que encheu a sala 3 do Sesc 14 Bis, e que também participou do papo, fazendo perguntas sobre diversos aspectos do trabalho desempenhado por Gavin, que respondeu tudo com máxima atenção e dedicação, proporcionando uma verdadeira aula de comunicação e história da música, brindando cada presente com uma dinâmica singular e simples, que prende a pessoa pela quantidade incrível dos detalhes, resultado de uma memória impecável e muito bem preservada.


A audiência estava tão conectada com Charles, que acabou ultrapassando o horário previsto para o encerramento da experiência, ganhando 15 minutos de acréscimo. Perguntas sobre variados temas foram feitas, como a sua convivência com Ciro Pessoa, seu trabalho como pesquisador e produtor, os relançamentos em que atuou no começo dos anos 2000, seus tempos iniciais de ensaios com o Ira!, lados B dos Titãs que aprecia e também o tão sonhado lançamento de um box com os discos dos Titãs remasterizados e com canções que permanecem inéditas até hoje.

No meio de tantos assuntos importantes, Charles destacou que em 2025, poderá haver o lançamento do “Acústico MTV” dos Titãs em vinil: “eu mesmo estou cuidando disso, era pra ter acontecido esse ano, mas vamos tentar para o próximo.”.


O pós evento foi ainda mais especial, os presentes formaram uma fila para tirar fotos e conversar com o baterista, que prontamente atendeu um por um, conversando, rindo, autografando LPs e CDs dos Titãs, entre muitas fotos, com uma educação ímpar e simplicidade que é muito incomum aos músicos e artistas do seu calibre.


“Charles Gavin Em Primeira Pessoa” foi aprovado pelo público

Charles Gavin autografando o box “Ira! Demos 83-84” que pertence ao jornalista Jefferson Vicente.

Fonte: autor.


“Charles Gavin Em Primeira Pessoa” mostra a importância desse contato mais próximo do artista com o seu público, e Gavin já está acostumado com isso, pois desde os tempos com os Titãs, sempre garantiu total atenção, carinho e respeito para com as pessoas que apreciam a sua arte.


Como um todo, o evento foi amplamente aprovado pelo público, como ressalta o jornalista Jefferson Vicente, admirador de longa data do trabalho de Charles Gavin, e também todo o Rock brasileiro: “O Sesc é uma das instituições que melhor promove a cultura e o acesso a inúmeros artistas no Brasil. Pra mim, foi como um retorno à universidade, até por ter sido em uma sala de aula, só que com um professor que me ensinou muito sobre música, seja como baterista ou como pesquisador/apresentador. Pra mim, o ponto positivo foi justamente essa proximidade com o Charles Gavin. Foi uma verdadeira aula sobre a história do rock brasileiro e sobre iniciativas da indústria fonográfica.”


O jornalista ainda ressalta que Gavin, como um bom amante da história da música, sempre compartilha um conteúdo rico em suas entrevistas: “Por mais que eu já conhecesse muitas daquelas histórias, sempre é muito agradável ouvir ele contando e sempre tem um detalhe ou outro que acaba se tornando uma novidade pra gente.”

 

Outra admiradora do trabalho de Charles Gavin é a Luana Costa, administradora de empresas, que acompanha a banda desde 2003, que aprovou o evento com louvor, dizendo que “O evento foi incrível, nos deu a oportunidade de conhecer o Charles além de seu talento como baterista excepcional.”.


A forma como o baterista se comunica é notada por todos que podem compartilhar da sua presença e sabedoria, Luana também abordou a importância de estar em um evento desses: “A maneira como Charles narra as histórias faz com que a gente  visualize cada detalhe, isso demonstra o quanto ele se importa com cada relato, a atenção na hora de responder as perguntas feitas por fãs, deixa claro o quanto estar ali naquele momento é importante não só para os fãs mas para ele também.”.


A publicitária Marta Bravo, que acompanha o trabalho de Charles Gavin há 30 anos, destacou a importância desse tipo de evento, uma vez que é uma maneira diferente de estar na presença do músico, em um ambiente diferente da adrenalina dos shows e do backstage, ressaltando o aprendizado oferecido.


Marta ainda acrescenta: “o que eu mais gostei nessa conversa foi a forma com que ele encontrou para aprender e se desenvolver como músico. A pessoa quando tem um dom, as barreiras ficam pequenas e todas as adversidades são superadas. O melhor baterista do Brasil aprendeu tocar num sofá e em listas telefônicas! Sensacional!”.


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