Com o Espaço Unimed lotado, banda transforma o clássico em experiência viva e prova que sua urgência continua pulsando quatro décadas depois.
Por: Alessandro Costa
Na noite de 28 de março de 2026, não era só mais um show em São Paulo, havia algo diferente no ar. Do lado de fora e dentro do Espaço Unimed, na Barra Funda, a sensação era de reencontro entre gerações, memórias e um disco que nunca deixou de incomodar. Quando os Titãs surgiram para celebrar os 40 anos de Cabeça Dinossauro, ficou claro que não se tratava apenas de revisitar um álbum, mas de reviver um estado de espírito.
Cabeça Dinossauro: O Choque
Foto: Alessandro Costa
Como lembraria o baterista Charles Gavin, o disco nasceu de um lugar de raiva, do mercado, da gravadora, de tudo. Esse estado emocional se somava a acontecimentos marcantes, como a prisão do vocalista Arnaldo Antunes e do guitarrista Tony Bellotto por porte de heroína em dezembro de 1985, que também influenciaram diretamente a mudança estética da banda. Mas essa virada não aconteceu de forma repentina, como apontam os próprios integrantes, os sinais dessa sonoridade mais pesada já estavam ali em músicas anteriores.
Em fevereiro de 1986, antes mesmo do lançamento, o vocalista Branco Mello já antecipava que o próximo trabalho teria um “rock mais seco, mais cru”, com um som “mais primitivo, mais visceral”. Era exatamente isso que viria a se concretizar, pois como observou Bellotto anos depois, aquela linguagem já fazia parte do DNA da banda, um encontro entre crítica, peso, punk, mas também elementos de reggae e funk. Para o coprodutor Pena Schmidt, Cabeça Dinossauro representava um ponto de equilíbrio entre duas forças: a busca pela perfeição fonográfica e a afirmação da rebeldia.
Havia também uma necessidade clara de identidade, uma vez que com oito integrantes, múltiplos vocalistas e sem uma figura central, os Titãs ainda buscavam uma forma definitiva, e Cabeça Dinossauro mudaria essa leitura.
Mesmo após críticas ao trabalho anterior do produtor e ex Mutante, Liminha, ele foi escolhido para produzir o disco. A intenção era clara: capturar no estúdio a energia crua que a banda já demonstrava ao vivo. O repertório já estava praticamente definido antes das gravações, que aconteceram de forma intensa e rápida, pouco mais de um mês no estúdio Nas Nuvens, localizado no Rio de Janeiro, após uma demo registrada em apenas dois dias em São Paulo.
A urgência também se refletia nos detalhes. AA UU foi a primeira faixa gravada, já testada nos palcos, enquanto O Quê fechou o processo, depois de uma semana de gravação. Algumas músicas passaram por mudanças mais profundas, como Família e a própria faixa final. Em A Face do Destruidor, o vocal foi registrado em um único fôlego, sobre uma base invertida. Bellotto, por sua vez, experimentava até na execução dos solos, alternando a palheta com um anel para criar efeitos percussivos na guitarra, como é o caso de Bichos Escrotos. Tudo ali apontava para experimentação, risco e entrega.
Foto: Rosane Medeiros.
A estética visual do disco também rompia padrões, a capa foi inspirada em um estudo de Leonardo da Vinci, “A expressão de um homem urrando”, enquanto a contracapa utilizava outro desenho do artista, “Cabeça Grotesca”. As imagens vieram diretamente do Museu do Louvre, substituindo reproduções de baixa qualidade que a banda possuía. Era uma escolha ousada, uma das primeiras capas do rock brasileiro a não trazer a foto dos artistas. Essa ideia marcou a estreia do tecladista e vocalista Sérgio Britto como autor de diversas capas de álbuns da banda.
As primeiras 30 mil cópias ainda contaram com um acabamento especial, em papel fosco e poroso, mais caro que o convencional, viabilizado pelo apoio da gravadora na época. O reconhecimento veio também no campo visual: em 1987, a capa foi premiada em um concurso dedicado às melhores artes de discos de rock.
Quatro décadas depois, tudo isso ainda reverbera.
Cabeça Dinossauro: O Legado
O início do show foi silencioso, mas poderoso: no telão, a carta de censura de Bichos Escrotos. Um documento antigo, mas que ainda causa desconforto, sendo o tipo de abertura que não precisa de explicação, só de presença. Era um lembrete de que Cabeça Dinossauro nunca foi apenas música.
No palco, Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto, ao lado dos guitarristas Alexandre de Orio e Beto Lee, e o baterista Mario Fabre, começaram a tocar o disco na íntegra. Sem discursos longos, sem firulas, só música, que veio com força, precisa, ensaiada, mas longe de ser fria. Havia peso, havia sujeira, e, principalmente, havia verdade. Era como se o tempo não tivesse suavizado nada.
Algumas mudanças deram novos contornos ao repertório: Bellotto assumiu vocais de músicas que marcaram outras fases da banda, como Igreja, Família e Estado Violência, ligadas a Nando Reis e Paulo Miklos, enquanto Britto trouxe intensidade renovada para canções como A Face Do Destruidor e O Quê que carrega a assinatura de Arnaldo Antunes. Não era tentativa de reproduzir o passado, mas de dar continuidade e celebrar.
Se houve um momento em que tudo pareceu desacelerar, foi quando Branco Mello assumiu o centro da cena. Sua voz, hoje mais rouca, mais marcada, carrega cicatrizes e também força. Depois de enfrentar problemas sérios de saúde, ele não apenas cantava, se colocava ali inteiro. E o público sentia, não era sobre perfeição, era sobre verdade.
A parceria entre Alexandre de Orio e Beto Lee trouxe ainda mais densidade ao som, pois as guitarras vinham como uma onda constante, sustentando e tensionando cada música, ampliando o peso sem perder a essência, uma excelente homenagem ao legado do saudoso guitarrista Marcelo Fromer, falecido em junho de 2001. Na segunda parte do show, vieram surpresas que arrancaram reações imediatas, músicas menos óbvias, algumas há anos fora do repertório, como Armas Pra Lutar, Vou Duvidar e Eu Não Aguento apareceram como presentes para quem acompanha a banda de perto, mas que também funcionavam para quem estava ali pela primeira vez.
Foto: Alessandro Costa
Na plateia, não havia um perfil único, gente que viveu os anos 80, jovens que conheceram o disco muito depois, curiosos, fãs antigos e muitos outros tipos. Todos cantando, cada um à sua maneira. Talvez seja esse o maior feito de Cabeça Dinossauro: ele não envelheceu porque nunca tentou ser confortável.
Ao final da noite, mais do que um show, ficou a sensação de atravessar algo, de lembrar ou descobrir que certos discos não pertencem ao passado, eles continuam acontecendo.
Foto: Alessandro Costa
Set List:
• Cabeça Dinossauro
• AA UU
• Igreja
• Polícia
• Estado Violência
• A Face Do Destruidor
• Porrada
• Tô Cansado
• Bichos Escrotos
• Família
• Homem Primata
• Dívidas
• O Quê
• Será Que É Isso O Que Eu Necessito?
• Anjo Exterminador
• Armas Pra Lutar
• Canção da Vingança
• Vou Duvidar
• Eu Não Sei Fazer Música
• Diversão
• Nem Sempre Se Pode Ser Deus
• Eu Não Aguento
• Lugar Nenhum
• Desordem
• Flores
Titãs:
Branco Mello - Baixo e voz
Sérgio Britto - Teclados e voz
Tony Bellotto - Guitarra e voz
Músicos convidados:
Alexandre de Orio - Guitarra e vocais
Beto Lee - Guitarra e vocais
Mario Fabre - Bateria e vocais






