terça-feira, 19 de novembro de 2024

1984 - 2024: A Importância Do Primeiro Disco Dos Titãs Para A Música Brasileira

Entre clássicos absolutos e lados B interessantes, o primeiro álbum dos Titãs se mostra relevante até os dias de hoje.


Por: Alessandro Costa

11/11/2024


40 anos depois, o primeiro disco dos Titãs ainda possui um lugar especial na música brasileira.

Fonte: autor


Um pouco mal gravado. Sem muita técnica. Porém, com diversas influências, um discurso inteligente e com um desejo forte de ser sucesso em todos os cantos do Brasil, o primeiro registro dos Titãs já era diferente de tudo o que estava acontecendo na música brasileira no ano de 1984.


O Brasil de 1984 era muito diferente do Brasil de 2024, uma vez que a ditadura, embora mostrasse sinais de fraqueza, ainda era decisiva em muitos aspectos da rotina brasileira, especialmente no quesito cultural, pois todos os músicos precisavam submeter as letras de suas canções ao Ofício da Divisão de Censura de Diversões Públicas, que com mãos de ferro decidia o que seria ou não aprovado para as pessoas. Caso a letra fosse censurada, não poderia ser gravada no álbum, e se a ordem não fosse obedecida, o álbum em questão seria riscado, especificamente na faixa censurada, como aconteceu com a banda carioca Blitz, precursora do movimento de bandas de Rock no Brasil nos anos 1980, que teve duas faixas censuradas e riscadas no seu primeiro LP, “As Aventuras Da Blitz”, lançado em 1982, e que apesar das restrições na sua liberdade de expressão, acabou sendo sucesso em todo o Brasil com a música “Você Não Soube Me Amar”.



Do subúrbio paulistano para uma multinacional


A boate gay Village Station costumava receber os shows dos Titãs e muitos outros artistas com frequência

Fonte: Acervo Nando Reis


A banda formada no colégio Equipe em São Paulo, estava em plena atividade desde outubro de 1982, fazendo shows em todos os locais que os aceitassem, eles apresentavam um extenso material autoral, e alguns covers também. 


Durante o primeiro ano de atividade, a banda se chamava Titãs Do Iê Iê, e ainda contavam com um 9º elemento: o poeta Ciro Pessoa (1957 - 2020), que reforçava os vocais da banda ao lado de Arnaldo Antunes, Branco Mello, Nando Reis, Paulo Miklos e Sérgio Britto. No momento em que Ciro se desligou da banda, por divergências musicais, o “Iê Iê” caiu junto, e assim a banda passou a se chamar apenas Titãs.


Descobertos pelo produtor Peninha Schmidt, os Titãs foram levados para a gravadora Warner, onde Peninha também atuava como olheiro e estava encarregado de descobrir novos artistas para o elenco da multinacional. Peninha lembra dos Titãs nesse período inicial: “Os Titãs eram a soma de várias bandas, pois essas diferentes faces conseguiram sobreviver na banda. Dentro dessa variedade, eles conseguiram captar o espírito da época, uma coisa de jovens de classe média, mas observando uma sociedade desigual.”


Nando Reis, na época baixista e um dos vocalista dos Titãs, conta como era esse período inicial e o forte desejo que a banda sentia de gravar um LP, sendo parte de uma gravadora: “sempre fez parte do projeto dos Titãs ir para a televisão, ir para uma gravadora, a gente queria tocar no rádio. Então, gravamos fitas demo, algumas vezes indo em estúdios profissionais para poder registrar com melhor qualidade, e outras (vezes) fazendo gravações caseiras mesmo dos ensaios para mandar para todas as gravadoras, e muitas delas nunca se manifestaram, não aceitaram. A primeira que nos aceitou foi a Warner, que fez uma proposta pra gente gravar um compacto, que não aceitamos, porque a banda tinha 5 cantores, e a gente achava que um compacto não mostraria as características da banda, então, recusamos a primeira proposta da Warner.”


Peninha voltou com a recusa para a gravadora que era presidida por André Midani, considerado um visionário dentro do meio empresarial musical, que após insistência do olheiro, concordou em dar um disco completo à banda, algo muito pouco habitual para artistas que estavam começando.


No estúdio Áudio Patrulha


O som do teclado Cassiotone MT-70 foi fundamental para a sonoridade original do primeiro disco dos Titãs.

Fonte: internet


André Jung (bateria), Arnaldo Antunes (vocal), Branco Mello (vocal), Marcelo Fromer (guitarra), Nando Reis (baixo e vocais), Paulo Miklos (teclados, baixo e vocais), Sérgio Britto (teclados e vocais) e Tony Bellotto (guitarra), acompanhados do produtor Peninha Schmidt, entraram no estúdio Áudio Patrulha, localizado em Higienópolis, São Paulo, que, de acordo com Branco Mello, pertencia à Tico Terpins, baixista do Joelho de Porco, uma das mais importantes bandas paulistanas da década de 1970. Curiosamente, o Áudio Patrulha ficava perto da casa dos pais de Sérgio Britto.


O tecladista recorda: “naquela época, a gente tinha instrumentos precários, eu tinha um (teclado) Cassiotone, que era praticamente um brinquedo. Os guitarristas sim tinham guitarras boas, mas não tinham amplificadores, então, o nosso aparato para gravar era muito precário.”


Britto ainda destaca que os produtores e engenheiros de som não permitiam a entrada da banda na sala técnica para fazer comentários e sugestões, lembrando de ter feito o álbum com certa dificuldade nesse sentido e também com muita revolta. 


Branco Mello acrescenta que a banda não tinha experiência nenhuma, que o álbum foi gravado em linha (com os instrumentos ligados direto na mesa de som), e a única música que foi gravada com amplificador foi o solo da faixa “Toda Cor”, realizado por Tony Bellotto.


Agora que eu faço sucesso, você não me dá mais sossego


Nando Reis dividiu o baixo com Paulo Miklos durante as gravações do primeiro disco dos Titãs.

Fonte: autor


O resultado final do disco não se parece com nada do que estava acontecendo na música brasileira de 1984. Todas as influências dos Titãs estão preservadas e exaltadas, é possível encontrar a New Wave em “Toda Cor” (Marcelo Fromer, Ciro Pessoa e Carlos Barmack), “Pule” (Arnaldo Antunes e Paulo Miklos), “Babi Índio” (Branco Mello e Ciro Pessoa), “Mulher Robot” (Tony Bellotto) e “Seu Interesse” (Arnaldo Antunes e Paulo Miklos). O Reggae em “Marvin” (Nando Reis e Sérgio Britto), que trata-se de uma versão em português de “Patches” de Clarence Carter, “Go Back” (Sérgio Britto e Torquato Neto), um poema do poeta da Tropicália, Torquato Neto, e “Querem Meu Sangue” (Nando Reis), versão em português de “The Harder They Come” de Jimmy Cliff. A influência essencial dos Beatles em “Balada Para John e Yoko” (Sérgio Britto). Bem como as características básicas da MPB em “Sonífera Ilha” (Branco Mello, Tony Bellotto, Marcelo Fromer, Ciro Pessoa e Carlos Barmack) e até o Brega em “Demais” (Arnaldo Antunes).


O primeiro compacto dos Titãs acabou atrapalhando as vendas do primeiro LP do grupo.

Fonte: autor


Mesmo assim, os Titãs não escaparam do compacto, logo depois que o disco foi lançado, em agosto de 1984, um compacto trazendo duas canções também chegou às lojas, trazendo “Sonífera Ilha” no lado A e “Toda Cor” no lado B. Imediatamente, “Sonífera Ilha” se tornou um grande sucesso nas rádios do Brasil inteiro, e de acordo com os próprios Titãs, isso atrapalhou um pouco as vendas do álbum, que não chegou nem perto das 100 mil cópias e, consequentemente, não se tornou disco de ouro.


O sucesso de “Sonífera Ilha” foi tão grande que rendeu aos Titãs presença garantida nos principais programas de auditório da época, como ainda não haviam programas especializados em música, a solução era fazer a divulgação no Cassino do Chacrinha na TV Globo, Barros de Alencar na Rede Record, Clube do Bolinha na Bandeirantes, entre muitos outros programas que fizeram sucesso na década de 1980.

Para garantirem a atenção do público e não serem confundidos com as bailarinas, assistentes de palco e outras atrações desses programas, os Titãs tiveram aulas de dança com uma professora profissional, e assim desenvolveram a curiosa e divertida coreografia de “Sonífera Ilha”.


Britto lembra: “como a gente sempre gostou de tudo, essas coreografias eram inspiradas naquelas coisas da Motown, aqueles grupos tanto de mulheres quanto de homens que cantavam e dançavam, grupos de Black Music e Soul Music, como Supremes e Jackson 5, tudo era coreografado e cantado, antes de haver o Menudo.”


Assim, “Sonífera Ilha” permitiu que os Titãs pudessem conhecer e tocar em outras regiões do Brasil, como o Nordeste, além de se hospedarem em hotéis melhores. Por outro lado, a música era a única conhecida do grande público durante os shows, e por essa razão era tocada 3 vezes na mesma apresentação: no começo, no meio e no fim.


40 anos depois… Qual o legado deixado pelo primeiro álbum dos Titãs para a música brasileira?


Apesar da produção inexperiente, diversas músicas do primeiro álbum dos Titãs são sucesso até hoje.

Fonte: autor


Embora tenha sido elogiado por diversos veículos de comunicação na época de seu lançamento, como a Folha de São Paulo, o primeiro disco dos Titãs causou certo estranhamento, como lembra o crítico musical Régis Tadeu: ”Na época, uma coisa que me incomodou muito foi o som magrinho. Obviamente, o som saiu magrinho porque os Titãs ainda não eram especialistas em fazer um som que fosse mais encorpado, isso só surgiu com o Liminha. Agora tem um fato lamentável, a (fita) master desse disco foi apagada pela gravadora.”


O jornalista cultural Sérgio Martins diz ter ficado decepcionado quando o disco foi lançado, pois havia assistido os Titãs tocando no programa Fábrica do Som, gravado no Sesc Pompéia e transmitido pela TV Cultura em 1983, antes do lançamento do LP, e ressaltou o quão interessante a banda era e por essa razão esperava um disco com um som melhor resolvido.


Em meio à insatisfação e decepção com o som final do álbum e a qualidade de sua gravação, uma vez que a banda esperava um som mais potente, Sérgio Britto reflete: “acho que tudo isso foi compensado e muito pelo sucesso de ‘Sonífera Ilha’, com fato de tocar no rádio. E hoje em dia, eu vejo que aquela sonoridade, pelo menos para ‘Sonífera Ilha’, ficou adequada, e outras músicas, a gente acabou regravando, o que fez muito sentido, porque elas acabaram ficando não muito bem registradas, por exemplo ‘Go Back’ no disco ‘Go Back’ (1988) e depois no próprio Acústico, e a mesma coisa aconteceu com ‘Marvin’, que são músicas poderiam ter rendido mais já naquele primeiro disco e não renderam.”


Britto ainda pondera sobre a sensação mista em relação ao disco, pois era algo que a banda tinha um desejo muito grande de realizar, mas o resultado acabou sendo frustrante. E com o passar dos anos, o vocalista assegura mudou a sua visão em relação ao registro.


Tony Bellotto possui enorme carinho pelo primeiro disco dos Titãs

Fonte: autor


Em contrapartida, Tony Bellotto achou o disco ótimo. Lembrou da insatisfação dos amigos: “O Branco e o Britto ficaram putos com o som desse primeiro disco, eles diziam que estava uma merda, e eu falava pra eles: ‘vocês estão loucos, a gente tem um disco!’ (risos)”, e continua: “é engraçado, isso mostra muito como são as nossas personalidades, como elas se complementam e se completam em uma banda.”


Bellotto finaliza: “No fim das contas, eu acho que hoje em dia, todos nós concordamos que o nosso primeiro disco é muito legal do jeito que é, e é claro que expressa a nossa inexperiência, a nossa imaturidade, mas ao mesmo tempo tem uma coisa criativa muito forte que ficou registrada ali. Eu lembro sempre dessa situação, da gente ouvindo nosso primeiro disco pronto e tendo opiniões diferentes, e eu acho que isso reflete e mostra muito do que é uma banda e como funciona uma banda.”


A prova da relevância do primeiro álbum dos Titãs pode ser encontrada no número de regravações que diversos artistas da música brasileira fizeram de algumas faixas desse disco. Por exemplo, “Sonífera Ilha” é presença garantida em diversos bailes de carnaval e trios elétricos, e também já foi regravada por Pato Fu, Blitz, Flying Chair, Quizomba, Paulinho Moska, Moraes Moreira, Os Paralamas Do Sucesso, Bailinho de Quinta, Vingadores do Brega, Maria Luiza, Tomate, entre muitos outros.


“Marvin”, além de ser regrada pelo próprio Nando Reis em seus álbuns solos, também já regravada recentemente pelos próprios Titãs com a participação especial do cantor Vitor Kley, além de ter marcado presença nos álbuns de Paulo Ricardo, Biquini Cavadão, Jeito Moleque, Big Beto, e outros.


“Babi Índio” chegou a ser regravada pela banda Flying Chair, o último projeto de Ciro Pessoa, que contou com a participação especial de Branco Mello, uma vez que Ciro e Branco escreveram a canção juntos, que de acordo com relato pessoal de Ciro Pessoa, a dupla escreveu a música na base de muita maconha.


“Go Back” também já foi regravada pelos Paralamas Do Sucesso, Zeca Baleiro, Patrícia Amaral e Patrícia Marx.


Outra faixa desse disco que foi regravada e fez um enorme sucesso, foi “Querem Meu Sangue”, presente no álbum “Sobre Todas As Forças” de 1994, lançado pelo Cidade Negra. 


Mas os fãs dos Titãs têm um carinho especial com esse registro, como é o caso da administradora de empresas, Luana Costa, de 28 anos, que começou a acompanhar a banda em 2003. A fã lembra da primeira vez que ouviu o disco, embora fosse muito pequena, ficou fascinada com a introdução da faixa “Babi Índio”, sendo a sua favorita desse álbum. Além disso, a administradora ressalta que a capa do álbum lhe chamou muito a atenção: “Eram 8 pessoas, não é nada comum, mas isso só mostra o quanto eles sempre foram autênticos e foram contra todos os padrões de ‘banda ideal’ desde o início.


Sobre as músicas desse álbum que não podem faltar nos shows dos Titãs, Luana pensa diferente da maioria: “Não tenho certeza se eles já tocaram em algum show, mas eu adoraria ter escutado “Babi Índio” em algum show deles.”

Dênis Vianna, admirador de longa data da banda, acompanha de perto o trabalho dos Titãs desde o final dos anos 1980 e possui uma vasta coleção titânica, que inclui os álbuns oficiais, fitas VHS, DVDs, discos bootlegs, materiais de revistas, jornais e muitos outros itens incríveis e muito raros que nem os próprios Titãs possuem. Além disso, Dênis também conta com uma página no Instagram e um canal no YouTube chamados Arquivo Titãs, onde compartilha, diariamente, conteúdos pouco conhecidos e inéditos de seu próprio acervo.


Vianna lembra da sua primeira experiência com esse disco: “O primeiro disco dos Titãs foi o último que eu ouvi quando me tornei fã. O disco atual deles na época era o “Ô Blésq Blom”, aí fui adquirindo os outros até conseguir comprar o disco de 84, que era o mais raro na época de conseguir. Eu só conhecia “Sonifera Ilha”, lembro dela da época, mas para mim era apenas uma música conhecida, assim como tantas outras dos anos 80. Assim que ouvi o disco, ainda em vinil, lembro de achar estranhas as versões de “Marvin” e “Go Back”, já estava acostumado com elas nas versões do ao vivo.

As outras músicas devo ter tido essa mesma sensação de estranheza, pois eram bem diferentes do que já conhecia deles e do que a banda estava fazendo atualmente, nessa altura já tinham lançado o “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”. Mas logo entendi que era o início de tudo e aprendi a gostar e valorizar muito esse disco.


A relação dos fãs dos Titãs com canções menos conhecidas do grande público é muito curiosa, e o primeiro álbum da banda possui muitas pérolas, que aqui foram lembradas por Dênis: “Acho que o ‘Lado B’ que eu mais gosto desse disco é ”Balada Para John e Yoko”, fui conhecer a versão original dos Beatles muito tempo depois”.


E 40 anos depois, qual o legado esse álbum deixa para o público fiel que acompanha os Titãs? Vianna responde: “Acho que ele envelheceu bem sim, 40 anos se passaram e muito do que a banda veio a se tornar você já encontra nesse disco: a originalidade dos arranjos, a diversidade de estilos, a criatividade nas letras, o rodízio nas parcerias e nos instrumentos. Enfim, é um grande disco de estréia.”


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

“Grossroads”: Um álbum que mostra ser possível a renovação da essência em cima de um palco


O primeiro disco ao vivo da carreira solo de Marcelo Gross reúne músicas de seus discos solo, alguns clássicos da Cachorro Grande, além de apontar para novos horizontes


Por: Alessandro Costa

14.11.2024


“Grossroads” foi lançado em 25 de outubro de 2024 e já se mostra um disco importante dentro do universo inquieto de Marcelo Gross.


Marcelo Gross ganhou notoriedade dentro do cenário do Rock n’ Roll gaúcho, e também brasileiro de maneira geral, quando foi baterista da banda do saudoso Júpiter Maçã ao final da década de 1990, mas o reconhecimento veio mesmo quando, ao lado de Beto Bruno, Gabriel Azambuja, Pedro Pelotas e Jerônimo Lima, fundou a Cachorro Grande, uma das bandas mais importantes do cenário brasileiro do Rock dos anos 2000.


Com a Cachorro Grande, Gross desenvolveu um estilo único de guitarra, reverenciando sempre suas principais influências de Pete Townshend, Keith Richards e George Harrison, lançando diversos álbuns: “Cachorro Grande” de 2001, “As Próximas Horas Serão Muito Boas” de 2004, “Pista Livre” de 2005, “Todos Os Tempos” de 2007, “Cinema” de 2009, “Baixo Augusta” de 2011, “Costa Do Marfim” de 2014, “Electromod” de 2016 e o "Clássicos" de 2018.


Embora tenham entrado em hiato por volta de 2018, a Cachorro Grande está celebrando seus 25 anos de história com uma turnê nacional, além do lançamento do documentário “A Última Banda De Rock”, lançado em outubro de 2024, que conta toda a trajetória da banda.


Por ser um compositor ativo, criativo e prolífico, Marcelo Gross sempre acumulou um grande número de canções, e algumas não couberam no repertório da Cachorro Grande, o que o levou a lançar, em 2013, seu primeiro disco solo, “Use O Assento Para Flutuar”.


Já o segundo álbum chegou em 2017, “Chumbo e Pluma” apresenta um momento muito fértil na composição de Gross, sendo um disco duplo. O primeiro álbum apresenta canções pesadas, Rocks em sua melhor essência, perfeitas para pular e cantar a plenos pulmões. Já o segundo disco mostra um lado mais sensível, profundo e pessoal de Gross, com músicas mais lentas, românticas, reflexivas e sinceras, algumas apenas com voz e violão, outras apenas com voz, piano e percussão.


Em 2021, em plena pandemia, Gross lançou “Tempo Louco”, gravado nos estúdios Clandestino da Rua Augusta. Um álbum extremamente pessoal e que apresenta a guitarra de Marcelo em momentos inspirados e cheios de energia.


No final de 2022, Gross surpreende e lança “Exilado”, composto e gravado durante os tempos da pandemia. É importante destacar que nesse grande álbum, todos os instrumentos foram tocados pelo próprio Marcelo Gross.


E eis que chegamos em 2024… No começo do ano, Gross lança um livro, “Grosswords”, que reúne todas as suas letras gravadas pela Cachorro Grande e em seus trabalhos solo, além de 4 escritas inéditas. Esse livro foi concebido no formato de poesia.


Em paralelo ao lançamento de “Grosswords”, Marcelo Gross anuncia seu primeiro disco ao vivo, “Grossroads”, que foi gravado nos dias 21 e 22 de março de 2024, no Teatro Túlio Piva, em Porto Alegre. Gross subiu ao palco acompanhado de uma banda espetacular, composta pelo baixista de longa data Eduardo Barreto, que também faz um trabalho de qualidade nos backings vocals, Lucas Leão na bateria e Jimmy Pappon nos teclados.


Lançado em 25 de outubro de 2024, “Grossroads” chegou primeiro às plataformas de streaming, com Marcelo garantindo que o álbum será lançado em uma caprichada edição em vinil, além de vídeos do show estarem disponíveis no YouTube.


“Grossroads”: Faixa a faixa


O disco abre com uma majestosa canção do disco “Chumbo e Pluma”: “Me Recuperar”, em uma levada esperta do competente baterista Lucas Leão, seguida pela inconfundível guitarra de Gross. Se mostrando uma excelente escolha para abrir o show e o disco. A pegada vintage fica bem óbvia na mixagem dos vocais do guitarrista.


O show continua com a carismática “Alô, Liguei”, outra música importante do álbum “Chumbo e Pluma”, uma das letras mais bacanas e bem resolvidas do repertório de Marcelo Gross. O guitarrista faz uma boa dupla com o tecladista Jimmy Pappon durante o solo. Aliás, este foi o primeiro single lançado para promover o novo disco ao vivo.


Na sequência temos a épica “Eu Aqui e Você Nem Aí”, lançada originalmente no primeiro disco solo de Gross, “Use O Assento Para Flutuar”, sendo um momento único no show e da total entrega de Gross ao cantar versos como “vou fazer como na canção do velho Tremendão, vou ficar nu para chamar sua atenção.”


Coisas Impossíveis” começa com uma levada interessante do baixista Eduardo Barreto e a bateria swingada de Lucas Leão. Essa é a primeira novidade do disco ao vivo, uma vez que trata-se de uma versão da canção “Cosas Imposibles” do argentino Gustavo Cerati. E mesmo sendo uma versão, Gross deixou a sua impressão digital durante toda a canção. Uma jóia.


O show continua com “Dia Perfeito”, clássico da Cachorro Grande, lançado em seu disco de estréia de 2001, sendo um dueto do vocalista Beto Bruno com Marcelo Gross. Esse é um dos maiores momentos do show, mostrando que a permanece é uma das faixas mais queridas do público fiel do Gross.


Depois temos a linda “Quase Fui”, que está presente no disco “Chumbo e Pluma”, uma balada doce e suave, que mostra toda a versatilidade de Gross, que dá tudo de si em canções mais agitadas, e aqui mantém a classe e a sofisticação de maneira muito inteligente, mantendo a energia enigmática que essa letra exige, além de dominar o violão com uma maestria que poucos artistas brasileiros possuem. Com certeza é um dos momentos mais bonitos desse disco.


Outra novidade do álbum é a faixa inédita “Linguagem Dos Sinais”, com uma melodia contagiante, uma letra curiosa e que gruda na cabeça de quem ouve. A inclusão de faixas novas em álbuns ao vivo é uma prática que proporciona um frescor a mais, e no caso do Gross, ele prova que é possível se renovar em cima do palco. 


A Hora De Levantar”, a quarta música do disco “Use O Assento Para Flutuar”, se mostra perfeitamente perfeita em sua essência ao vivo, com Gross em boa sincronia com Eduardo Barreto, Lucas Leão e Jimmy Pappon. Um excelente momento Rock n’ Roll.


O espetáculo continua com “Sinceramente”, talvez a canção mais conhecida da Cachorro Grande, registrada originalmente no álbum “Pista Livre”. Aqui Gross faz uma interpretação especial, afinal, ele é o autor destes versos incríveis, e mostra como enxerga uma de suas maiores obras primas. Gravações assim são muito importantes, pois é sempre saudável conhecer a interpretação de um autor de sua própria obra.


E “Grossroads” encerra com a psicodélica “Purpurina”, do álbum “Chumbo e Pluma”. Esse é um momento de total redenção e cumplicidade, Gross se une à sua banda, e juntos formam um único ser, a jam session no final é a prova real disso. Um momento de alto astral total, ideal para encerrar o show e o disco.


“Grossroads”: ponto negativo


Acompanho o trabalho de Marcelo Gross desde 2005, quando fiquei maluco ao ver a estréia do clipe da música “Você Não Sabe O Que Perdeu” na MTV, e era o primeiro single do novo álbum questão, o “Pista Livre”, e a partir daquele momento, passei a conhecer o que eles já haviam lançado e acompanhei tudo o que eles fizeram depois. E ver o lançamento dos discos solo do Gross me tornou ainda fã de sua fina arte, passei a admirá-lo ainda mais, e devorei tudo o que foi lançado até o presente momento.


E o ÚNICO ponto negativo neste novo trabalho é a ausência de mais músicas, especialmente canções maravilhosas do disco “Exilado”, como “E O Vento Levou”, “Eu Não Consigo Decidir”, “Passou”, Tudo Escondido”, entre outras. Bem como, faixas magníficas do álbum “Tempo Louco”: “Carnaval”, “A Dança Das Almas”, “As Lágrimas”, “Ela Não Quer”, “Nunca Vai Ser O Fim”, e todas as outras.


Além de outras músicas do disco “Chumbo e Pluma” e “Use O Assento Para Flutuar”, como “Não Vá”, “Reconstruindo A Cidade”, “Trilhos”, “Disfarça”, e muitas outras que mereciam um registro ao vivo com essa qualidade toda e que funcionariam super bem e agregariam ainda mais à energia diferenciada que esse disco ao vivo possui.


“Grossroads”: pontos positivos


Em uma era onde o digital é cada vez mais presente, onde pessoas não têm paciência de ouvir uma música inteira, quem dirá um álbum inteiro, ainda mais ao vivo, Marcelo Gross prova que é possível fazer um trabalho honesto, com qualidade e excelência, um Rock n’ Roll puro e singular.


A produção do disco é bem equilibrada, cada instrumento pode ser apreciado com clareza, em momento algum um se destaca mais que o outro, a unidade é muito bem resolvida e Gross conduz isso tudo com habilidade natural.


Mesmo sendo o principal compositor da Cachorro Grande, o trabalho de Gross possui uma abordagem e sonoridade diferentes daquela que possuía com a banda, evidenciando o seu talento enquanto compositor, guitarrista e cantor, porém, preservando e potencializando o seu carisma inquestionável, sem depender de seu glorioso passado.


Assim, “Grossroads”, apesar de possuir apenas 10 músicas, é um disco necessário para a boa música brasileira, e é um presente para quem gosta e aprecia a arte feita por Marcelo Gross.


domingo, 10 de novembro de 2024

EXPERIÊNCIA ALÉM DA MÚSICA: A ASCENSÃO, OS TROPEÇOS E A APROVAÇÃO DA 30e

Mesmo com diversas polêmicas e o não pagamento dos cachês de artistas e funcionários, a 30e segue como uma das maiores produtoras de entretenimento ao vivo da atualidade, com aprovação do público.


Por: Alessandro Costa

11/11/2024


A turnê Titãs Encontro segue como um dos cases de maior sucesso da 30e
Fonte: autor


Shows com estruturas monumentais e festivais de música se tornaram cada vez mais comuns no Brasil, pelo menos é o que acontece nos últimos 10 anos, mesmo com as edições anuais de grandes festivais como o Rock In Rio e o Lollapalooza. Essa alta popularidade dos recentes eventos de música se deve a muitos fatores, por exemplo, o poder aquisitivo do brasileiro que parece ter recebido uma considerável melhora, que é o que aponta o último relatório Focus de 12 de abril, que divulgou que o IPCA de abril de 2024, apresentou um aumento de 0,01% em relação à última divulgação em 5 de abril, acumulando 3,76% nos últimos 12 meses.

Entre 2023 e 2024, o estado de São Paulo recebeu um amplo número de atrações grandiosas, como os festivais Lollapalooza, The Town, Monsters Of Rock, I Wanna Be, Summer Breeze, entre outros, além de shows de artistas como Paul McCartney, Bruce Dickinson, Accept, Judas Priest, The Sisters Of Mercy, bem como os shows nacionais, como a reunião dos grupos NX Zero, Natiruts, a turnê de despedida do Sepultura, bem como a turnê Titãs Encontro.

Para gerenciar shows desse porte e com toda a estrutura necessária para atrair o público, é preciso que uma empresa com experiência adequada, profissionais qualificados e o conhecimento necessário no mercado do entretenimento musical, entre em cena, como é o caso da 30e.


Quem promove toda essa experiência?


A 30e possui quase 100 mil seguidores em seu Instagram e realiza postagens diárias.
Fonte: autor

A 30e foi fundada em sociedade pelos empresários Pepeu Correa, Gustavo Luiz de Oliveira e Caio Sentinaro Jacob, com o aporte do fundo de investimentos HSI, que conta com portfólio formado por shoppings centers, restaurantes como a hamburgueria Madero, empreendimentos imobiliários, entre outros.


A organização atende anualmente cerca de 3 milhões de pessoas em suas experiências de “delivering happiness” (entregando felicidade), que se tornou o slogan máximo de sua posição e missão empresarial. A estratégia desempenhada pela empresa que não poupa barulho no momento da divulgação de seus negócios, especialmente nas redes sociais, pois a empresa conta quase 100 mil seguidores no Instagram (@30ebr), visando se impor no mercado musical. Uma das principais características de Pepeu Correa, que se apresenta como “presidente, CEO e diretor”, que consegue atenção por meio de restaurantes, prédios comerciais e estádios por onde passa, sem deixar de lado a presença dos seus seguranças particulares. Quem conhece Pepeu destaca que trata-se de um homem inteligente e com boa retórica. 


Cases de sucesso

Foram 6 noites de ingressos esgotados no Allianz Parque para conferir a turnê Titãs Encontro.

Fonte: autor


No presente momento, talvez o caso de maior sucesso do portfólio da 30e é a turnê Titãs Encontro, que reuniu os momentos da formação clássica da banda paulistana, com exceção do guitarrista Marcelo Fromer, falecido em junho de 2001. A turnê foi anunciada em novembro de 2022 em uma grande coletiva de imprensa, onde os 7 Titãs responderam perguntas de jornalistas e admiradores, o evento também foi transmitido pelo YouTube.


Desse modo, é importante destacar que o sucesso da turnê Titãs Encontro não se deve apenas às ações desempenhadas pela 30e, e sim um trabalho em conjunto com a equipe dos próprios Titãs, que tem a empresária Silvia Venna atuando, bem como as equipes dos membros que já se desligaram do grupo, como o Diogo Damascena, empresário de Nando Reis, Renata Galvão empresária de Paulo Miklos e Bruno Capim, empresário de Arnaldo Antunes. 


No centro da polêmica


Tudo parecia correr de acordo com os planejado pela 30e, entretanto, em maio de 2024, a empresa se viu envolvida em uma grande polêmica com as cantoras Ivete Sangalo e Ludmila, que cancelaram suas turnês de maneira simultânea. A turnê de Ivete Sangalo se chamaria “Festa” teria foco na comemoração pelos seus 30 anos de carreira, e a de Ludmila receberia o nome de “Ludmila In The House” e seria em comemoração aos seus 10 anos de trabalhos. Esses shows deveriam ocorrer em estádios e grandes arenas ao redor do Brasil, no entanto, de acordo com informação obtida através de publicação no site da revista Billboard Brasil, a procura pelos ingressos não foi exatamente a esperada, o que obrigou a produtora solicitar que tantos os shows de Ivete Sangalo e Ludmila fossem transferidos para espaços menores, o que não foi aceito pelas artistas.


Além disso, as ambições da 30e são acompanhadas pela fama de má pagadora. O empresário e proprietário da Parcerias Produz Marco Antônio Magalhães, mais conhecido como Ratho, espera receber os 15 mil reais acordados pelos trinta dias de trabalho executados na montagem da edição em Minas Gerais da I Wanna Be Tour, em 10 de abril de 2024, na Arena Independente.


Segundo o site UOL, a 30e acumula dívida que ultrapassa os 2,6 milhões de reais em multas trabalhistas, em conformidade com certidão obtida pelo veículo no Ministério do Trabalho.


Carol Sampaio, então promoter contratada pela 30e para convidar influenciadores e artistas para o show de Ivete Sangalo em dezembro de 2023, no estádio do Maracanã, recebeu o seu cachê apenas em março, e isso só foi possível após realizar algumas cobranças em grupos de WhatsApp com representantes da empresa.

A banda NX Zero, que realizou dois shows no Allianz Parque, nos dias 15 e 16 de dezembro de 2023, até o presente momento da publicação desta matéria, ainda não recebeu o cachê de aproximadamente 3 milhões de reais que deveria ter sido pago em dezembro.


Mesmo com as confusões, o público aprova a experiência promovida pela 30e

A 30e trouxe a turnê Got Back para o Brasil, e o público aprovou a estrutura dos shows

Fonte: internet


O público que acompanhou os shows da turnê Titãs Encontro aprova toda a estrutura de palco e de som proporcionada pela parceria da banda com a 30e, telões especiais com imagens e vídeos pensados para cada música, além da homenagem ao falecido guitarrista Marcelo Fromer causaram muita emoção aos presentes.

Por acompanhar o trabalho dos Titãs há 21 anos, a administradora de empresas Luana Costa, de 28 anos, se impressionou com a estrutura do show que assistiu no Allianz Parque: "foi uma coisa que eu nunca imaginei, acho que ninguém que viu esse show pensou em algo tão grandioso. Os telões, o tamanho do palco, como tudo foi bem aproveitado, sem falar que o som estava perfeito".

A fã dos Titãs não se importa com as recentes polêmicas envolvendo a 30e, ela relatou que o que importa é eles entregarem bons shows e fazerem valer o dinheiro gasto, que é sempre uma quantia alta.


O publicitário Paulo Esteves, de 34 anos, assistiu os shows da turnê Titãs Encontro e também esteve no show de Paul McCartney, durante a turnê Got Back, em dezembro de 2023 no Maracanã no Rio de Janeiro, e ressalta a qualidade presente no evento apresentado pela 30e: “foi um show lindo, o som estava bom, os telões no palco, todas aquelas imagens… A gente ainda foi filmado cantando o coro de ‘Give A Peace A Chance’, foi demais.”.


Ainda para 2024, a 30e também irá apresentar os shows de Forfun, Natiruts, Sepultura em sua turnê de despedida, Ney Matogrosso, e muitas atrações internacionais, com o festival Knotfest promovido pela banda americana Slipknot, o grupo Toto, Bring Me The Horizon, Twenty One Pilots (com cachês milionários), Mariah Carey e a banda inglesa Simply Red, para janeiro de 2025.   


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