O primeiro disco ao vivo da carreira solo de Marcelo Gross reúne músicas de seus discos solo, alguns clássicos da Cachorro Grande, além de apontar para novos horizontes
Por: Alessandro Costa
14.11.2024
“Grossroads” foi lançado em 25 de outubro de 2024 e já se mostra um disco importante dentro do universo inquieto de Marcelo Gross.
Marcelo Gross ganhou notoriedade dentro do cenário do Rock n’ Roll gaúcho, e também brasileiro de maneira geral, quando foi baterista da banda do saudoso Júpiter Maçã ao final da década de 1990, mas o reconhecimento veio mesmo quando, ao lado de Beto Bruno, Gabriel Azambuja, Pedro Pelotas e Jerônimo Lima, fundou a Cachorro Grande, uma das bandas mais importantes do cenário brasileiro do Rock dos anos 2000.
Com a Cachorro Grande, Gross desenvolveu um estilo único de guitarra, reverenciando sempre suas principais influências de Pete Townshend, Keith Richards e George Harrison, lançando diversos álbuns: “Cachorro Grande” de 2001, “As Próximas Horas Serão Muito Boas” de 2004, “Pista Livre” de 2005, “Todos Os Tempos” de 2007, “Cinema” de 2009, “Baixo Augusta” de 2011, “Costa Do Marfim” de 2014, “Electromod” de 2016 e o "Clássicos" de 2018.
Embora tenham entrado em hiato por volta de 2018, a Cachorro Grande está celebrando seus 25 anos de história com uma turnê nacional, além do lançamento do documentário “A Última Banda De Rock”, lançado em outubro de 2024, que conta toda a trajetória da banda.
Por ser um compositor ativo, criativo e prolífico, Marcelo Gross sempre acumulou um grande número de canções, e algumas não couberam no repertório da Cachorro Grande, o que o levou a lançar, em 2013, seu primeiro disco solo, “Use O Assento Para Flutuar”.
Já o segundo álbum chegou em 2017, “Chumbo e Pluma” apresenta um momento muito fértil na composição de Gross, sendo um disco duplo. O primeiro álbum apresenta canções pesadas, Rocks em sua melhor essência, perfeitas para pular e cantar a plenos pulmões. Já o segundo disco mostra um lado mais sensível, profundo e pessoal de Gross, com músicas mais lentas, românticas, reflexivas e sinceras, algumas apenas com voz e violão, outras apenas com voz, piano e percussão.
Em 2021, em plena pandemia, Gross lançou “Tempo Louco”, gravado nos estúdios Clandestino da Rua Augusta. Um álbum extremamente pessoal e que apresenta a guitarra de Marcelo em momentos inspirados e cheios de energia.
No final de 2022, Gross surpreende e lança “Exilado”, composto e gravado durante os tempos da pandemia. É importante destacar que nesse grande álbum, todos os instrumentos foram tocados pelo próprio Marcelo Gross.
E eis que chegamos em 2024… No começo do ano, Gross lança um livro, “Grosswords”, que reúne todas as suas letras gravadas pela Cachorro Grande e em seus trabalhos solo, além de 4 escritas inéditas. Esse livro foi concebido no formato de poesia.
Em paralelo ao lançamento de “Grosswords”, Marcelo Gross anuncia seu primeiro disco ao vivo, “Grossroads”, que foi gravado nos dias 21 e 22 de março de 2024, no Teatro Túlio Piva, em Porto Alegre. Gross subiu ao palco acompanhado de uma banda espetacular, composta pelo baixista de longa data Eduardo Barreto, que também faz um trabalho de qualidade nos backings vocals, Lucas Leão na bateria e Jimmy Pappon nos teclados.
Lançado em 25 de outubro de 2024, “Grossroads” chegou primeiro às plataformas de streaming, com Marcelo garantindo que o álbum será lançado em uma caprichada edição em vinil, além de vídeos do show estarem disponíveis no YouTube.
“Grossroads”: Faixa a faixa
O disco abre com uma majestosa canção do disco “Chumbo e Pluma”: “Me Recuperar”, em uma levada esperta do competente baterista Lucas Leão, seguida pela inconfundível guitarra de Gross. Se mostrando uma excelente escolha para abrir o show e o disco. A pegada vintage fica bem óbvia na mixagem dos vocais do guitarrista.
O show continua com a carismática “Alô, Liguei”, outra música importante do álbum “Chumbo e Pluma”, uma das letras mais bacanas e bem resolvidas do repertório de Marcelo Gross. O guitarrista faz uma boa dupla com o tecladista Jimmy Pappon durante o solo. Aliás, este foi o primeiro single lançado para promover o novo disco ao vivo.
Na sequência temos a épica “Eu Aqui e Você Nem Aí”, lançada originalmente no primeiro disco solo de Gross, “Use O Assento Para Flutuar”, sendo um momento único no show e da total entrega de Gross ao cantar versos como “vou fazer como na canção do velho Tremendão, vou ficar nu para chamar sua atenção.”
“Coisas Impossíveis” começa com uma levada interessante do baixista Eduardo Barreto e a bateria swingada de Lucas Leão. Essa é a primeira novidade do disco ao vivo, uma vez que trata-se de uma versão da canção “Cosas Imposibles” do argentino Gustavo Cerati. E mesmo sendo uma versão, Gross deixou a sua impressão digital durante toda a canção. Uma jóia.
O show continua com “Dia Perfeito”, clássico da Cachorro Grande, lançado em seu disco de estréia de 2001, sendo um dueto do vocalista Beto Bruno com Marcelo Gross. Esse é um dos maiores momentos do show, mostrando que a permanece é uma das faixas mais queridas do público fiel do Gross.
Depois temos a linda “Quase Fui”, que está presente no disco “Chumbo e Pluma”, uma balada doce e suave, que mostra toda a versatilidade de Gross, que dá tudo de si em canções mais agitadas, e aqui mantém a classe e a sofisticação de maneira muito inteligente, mantendo a energia enigmática que essa letra exige, além de dominar o violão com uma maestria que poucos artistas brasileiros possuem. Com certeza é um dos momentos mais bonitos desse disco.
Outra novidade do álbum é a faixa inédita “Linguagem Dos Sinais”, com uma melodia contagiante, uma letra curiosa e que gruda na cabeça de quem ouve. A inclusão de faixas novas em álbuns ao vivo é uma prática que proporciona um frescor a mais, e no caso do Gross, ele prova que é possível se renovar em cima do palco.
“A Hora De Levantar”, a quarta música do disco “Use O Assento Para Flutuar”, se mostra perfeitamente perfeita em sua essência ao vivo, com Gross em boa sincronia com Eduardo Barreto, Lucas Leão e Jimmy Pappon. Um excelente momento Rock n’ Roll.
O espetáculo continua com “Sinceramente”, talvez a canção mais conhecida da Cachorro Grande, registrada originalmente no álbum “Pista Livre”. Aqui Gross faz uma interpretação especial, afinal, ele é o autor destes versos incríveis, e mostra como enxerga uma de suas maiores obras primas. Gravações assim são muito importantes, pois é sempre saudável conhecer a interpretação de um autor de sua própria obra.
E “Grossroads” encerra com a psicodélica “Purpurina”, do álbum “Chumbo e Pluma”. Esse é um momento de total redenção e cumplicidade, Gross se une à sua banda, e juntos formam um único ser, a jam session no final é a prova real disso. Um momento de alto astral total, ideal para encerrar o show e o disco.
“Grossroads”: ponto negativo
Acompanho o trabalho de Marcelo Gross desde 2005, quando fiquei maluco ao ver a estréia do clipe da música “Você Não Sabe O Que Perdeu” na MTV, e era o primeiro single do novo álbum questão, o “Pista Livre”, e a partir daquele momento, passei a conhecer o que eles já haviam lançado e acompanhei tudo o que eles fizeram depois. E ver o lançamento dos discos solo do Gross me tornou ainda fã de sua fina arte, passei a admirá-lo ainda mais, e devorei tudo o que foi lançado até o presente momento.
E o ÚNICO ponto negativo neste novo trabalho é a ausência de mais músicas, especialmente canções maravilhosas do disco “Exilado”, como “E O Vento Levou”, “Eu Não Consigo Decidir”, “Passou”, Tudo Escondido”, entre outras. Bem como, faixas magníficas do álbum “Tempo Louco”: “Carnaval”, “A Dança Das Almas”, “As Lágrimas”, “Ela Não Quer”, “Nunca Vai Ser O Fim”, e todas as outras.
Além de outras músicas do disco “Chumbo e Pluma” e “Use O Assento Para Flutuar”, como “Não Vá”, “Reconstruindo A Cidade”, “Trilhos”, “Disfarça”, e muitas outras que mereciam um registro ao vivo com essa qualidade toda e que funcionariam super bem e agregariam ainda mais à energia diferenciada que esse disco ao vivo possui.
“Grossroads”: pontos positivos
Em uma era onde o digital é cada vez mais presente, onde pessoas não têm paciência de ouvir uma música inteira, quem dirá um álbum inteiro, ainda mais ao vivo, Marcelo Gross prova que é possível fazer um trabalho honesto, com qualidade e excelência, um Rock n’ Roll puro e singular.
A produção do disco é bem equilibrada, cada instrumento pode ser apreciado com clareza, em momento algum um se destaca mais que o outro, a unidade é muito bem resolvida e Gross conduz isso tudo com habilidade natural.
Mesmo sendo o principal compositor da Cachorro Grande, o trabalho de Gross possui uma abordagem e sonoridade diferentes daquela que possuía com a banda, evidenciando o seu talento enquanto compositor, guitarrista e cantor, porém, preservando e potencializando o seu carisma inquestionável, sem depender de seu glorioso passado.
Assim, “Grossroads”, apesar de possuir apenas 10 músicas, é um disco necessário para a boa música brasileira, e é um presente para quem gosta e aprecia a arte feita por Marcelo Gross.
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