Gravado no Santo Rock Bar, o disco lançado em 2025 eterniza a força do Golpe de Estado no palco e marca a despedida de Nelson Brito, último membro da formação clássica.
Por: Alessandro Costa

O disco foi lançado apenas em CD, preservando a valorização da mídia física.
Fonte: Alessandro Costa.
Fonte: Alessandro Costa.
A história do Golpe de Estado começa no fim de 1985, em São Paulo, quando o baixista Nelson Brito e o baterista Paulo Zinner tocavam no Fickle-Pickle. O projeto contou brevemente com o vocalista André Catalau, mas só ganhou forma definitiva com a entrada do guitarrista Hélcio Aguirra, então integrante do Harppia, de mod que o entrosamento foi imediato, levando Hélcio a se dedicar exclusivamente à banda. Em menos de um ano, já tocavam por teatros e bares da cidade e registravam seu primeiro disco, produzido por Luiz Calanca, do selo Baratos Afins.
O álbum de estreia, Golpe de Estado, chegou ao mercado em 1986 com uma concepção incomum: um lado do vinil em 33 rpm e o outro em 45. A ideia gerou confusão, e muitas rádios paulistanas chegaram a tocar Olhos de Guerra na rotação errada. No encarte, a banda deixava claro seu posicionamento ao afirmar que o nome Golpe de Estado não se referia a uma subversão política, mas a um ataque direto ao conformismo, à apatia e aos estados de espírito depressivos incompatíveis com o verdadeiro Rock.
Sem contrato com grandes gravadoras, a banda seguiu de forma independente. Forçando A Barra, lançado em 1988 novamente pelo Baratos Afins, contou com a participação de Arnaldo Antunes e Branco Mello, dos Titãs, na faixa Onde Há Fumaça, Há Fogo. Em seguida, Nem Polícia Nem Bandido, lançado em 1989 pela Eldorado, ampliou o alcance do grupo e rendeu convites para abrir shows de bandas como Jethro Tull e Nazareth durante passagens pelo Brasil. Já Quarto Golpe de 1991 consolidou o nome do Golpe de Estado no cenário nacional, trazendo Caso Sério, o maior sucesso da carreira do grupo até hoje, além de render apresentações abrindo para o Deep Purple quando tocaram em São Paulo.
A banda seguiu em evolução durante 1994 com Zumbi, seu primeiro lançamento em CD. O álbum marcou uma mudança estética e conceitual: a faixa-título teve letra escrita por Rita Lee, e ainda contou com a participação da cantora nos vocais. O grupo gravou sua primeira música em inglês, Slow Down, e incluiu versões de My Generation, do The Who, e Hino de Duran, de Chico Buarque. Apesar da boa recepção, problemas de planejamento da gravadora Eldorado limitaram a prensagem inicial a apenas 2.000 cópias, rapidamente esgotadas.
Em 2008, a música Real Valor, gravada originalmente no disco Quarto Golpe de 1991 ganhou destaque ao ser utilizada em um projeto social idealizado pela banda Porto Cinco2. A canção foi regravada e disponibilizada para download mediante contribuição financeira, com renda revertida à CUFA, contando também com o apoio de Catalau.
Com novas mudanças na formação em 2010, o baterista Paulo Zinner e o vocalista Kiko Muller deixaram a banda. Em 2011, o Golpe de Estado retomou o ritmo de shows e com formação nova, agora com Roby Pontes na bateria, e Dino Linardi nos vocais, e gravaram Direto do Fronte, registrado no estúdio Mosh em São Paulo, e com participação de Dinho Ouro Preto do Capital Inicial na faixa “Rock Star”. O lançamento veio pela Substancial Music, que posteriormente relançou versões remasterizadas dos discos Nem Polícia Nem Bandido, Quarto Golpe e Zumbi.
Em janeiro de 2014, a banda sofreu uma perda irreparável com a morte do guitarrista Hélcio Aguirra. Pouco tempo depois, o Golpe de Estado anunciou o encerramento das atividades, em comunicado assinado por Nelson Brito. A pausa, no entanto, não foi definitiva. Em 2016, a banda retornou com nova formação, tendo João Luiz nos vocais, Marcello Schevano na guitarra, Roby Pontes na bateria e Nelson Brito no baixo.
Todo esse percurso desemboca em Último Golpe Ao Vivo. A banda soa extremamente afiada e poderosa: Roby Pontes entrega uma bateria precisa, forte como um trovão, com clara influência de Eric Carr, do KISS. Marcello Schevano honra o legado de Hélcio Aguirra, reproduzindo riffs e solos com fidelidade, mas imprimindo identidade própria. João Luiz se mostra carismático e dono de um vocal poderoso, consolidando-se como o melhor cantor da banda desde o inigualável Catalau. Nelson Brito, por sua vez, desliza os dedos com precisão no contrabaixo, evocando em muitos momentos a pegada do lendário Geezer Butler, do Black Sabbath. Foi Nelson quem segurou a bandeira do Golpe de Estado por todos esses anos.
O disco preserva a energia crua e a qualidade técnica sempre presentes nos shows da banda. As participações especiais reforçam o caráter histórico do registro: Kiko Müller assume os vocais em Pra Poder e Paixão. Rogério Fernandes canta em Todo Mundo Tem Um Lado Bicho, Cada Dia Bate De Um Jeito e Forçando A Barra. Catalau retorna em momentos emblemáticos com Olhos De Guerra, Caso Sério e Velha Mistura. No encerramento, Kiko Müller e Rogério Fernandes se unem a Catalau e João Luiz para uma sequência final avassaladora com Não É Hora, Nem Polícia Nem Bandido e Noite De Balada.
Embora o show no Santo Rock Bar tenha incluído outras músicas, como Dias De Glória (com a participação de Catalau) e Libertação Feminina, elas ficaram fora do disco por razões não divulgadas. Ainda assim, o repertório é abrangente e reafirma a força de todas as fases da banda, passando por Caosmópolis, Quantas Vão, Underground, Zumbi e Moondog.
Encerrando definitivamente suas atividades em dezembro de 2025, após cerca de um ano e meio sem integrantes da formação clássica, o Golpe de Estado se despede com um álbum à altura de sua história. Último Golpe Ao Vivo é especial não apenas por ser o último disco da banda, mas por reafirmar a força de um repertório que resistiu ao tempo, às mudanças de formação e à falta de apoio do mainstream. Bandas podem encerrarem suas atividades, mas enquanto essas músicas continuarem sendo ouvidas, o Golpe de Estado seguirá vivo para sempre.
Faixas de Último Golpe Ao Vivo
Caosmópolis (2022)
Quantas Vão (1994)
Underground (1986)
Zumbi (1994)
Pra Poder (2004)
Paixão (1989)
Moondog (1988)
Todo Mundo Tem Um Lado Bicho (1996)
Cada Dia Bate De Um Jeito (1996)
Forçando A Barra (1988)
Olhos de Guerra (1986)
Caso Sério (1991)
Velha Mistura (1989)
Não É Hora (1989)
Nem Polícia Nem Bandido (1989)
Noite De Balada (1989)
Discografia do Golpe de Estado
Golpe de Estado - (1986)
Forçando A Barra - (1988)
Nem Polícia Nem Bandido - (1989)
Quarto Golpe - (1991)
Zumbi - (1994)
10 Anos Ao Vivo - (1996)
Pra Poder - (2004)
Direto do Fronte - (2012)
30 Anos Ao Vivo - (2018)
Caosmópolis - (2022)
Último Golpe Ao Vivo - (2025)

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