domingo, 29 de dezembro de 2024

5 Grandes Discos Lançados Em 2024

 5 Grandes Discos Lançados Em 2024

O ano de 2024 foi marcado por grandes lançamentos nacionais e internacionais, e aqui vamos lembrar alguns desses momentos brilhantes.


Por: Alessandro Costa

30/12/2024




Gigantes da música nacional e internacional escreveram capítulos importantes em 2024
Fonte: autor


O cenário musical mundial foi bastante movimentado ao longo do ano de 2024, uma vez que diversos artistas consolidados renovaram seus horizontes e apresentaram produções memoráveis com grande qualidade. Isso aconteceu tanto no Brasil quanto no resto do mundo.



“The Mandrake Project” foi um álbum muito aguardado pelo público.

Fonte: Spotify


A presente lista começa com um dos álbuns mais aguardados do mundo do Heavy Metal. “The Mandrake Project”, sendo o 7º álbum de Bruce Dickinson, icônico vocalista do Iron Maiden.

A composição do álbum foi dividida entre Roy Z e Bruce Dickinson. Este é o primeiro trabalho solo de Dickinson em quase duas décadas, desde “Tyranny of Souls”  de 2005, marcando o maior intervalo entre dois álbuns de estúdio em sua carreira solo. Para promover o lançamento, o artista anunciou uma turnê mundial, que passou pelo Brasil entre abril e maio de 2024.

O álbum foi anunciado em 1º de dezembro de 2023, acompanhado pelo lançamento de seu primeiro single, “Afterglow Of Ragnarok”, o anúncio de uma série complementar de histórias em quadrinhos a ser publicada em 2024 e as datas de uma turnê pelo Reino Unido e Europa, programada para a primavera e o verão.

Parte do comunicado oficial destacou que o álbum seria uma obra conceitual e narrativa, complementada por uma série de 12 edições de histórias em quadrinhos publicadas pela Z2 Comics. A trama foi criada por Bruce, adaptada para os quadrinhos por Tony Lee e ilustrada por Staz Johnson. A história foi descrita como "sombria e adulta, abordando temas de poder, abuso e a busca por identidade, ambientada em um cenário que mistura genialidade científica e ocultismo".

O primeiro single, "Afterglow of Ragnarok", foi disponibilizado digitalmente e em vinil de 7", em uma capa gatefold, que incluía uma história em quadrinhos de 8 páginas. O lado B do vinil trouxe a versão demo solo original de Dickinson para "If Eternity Should Fail", música presente no álbum “The Book of Souls”  de 2015, do Iron Maiden.

O segundo single, "Rain on the Graves", foi lançado em 25 de janeiro de 2024 pela BMG Records, acompanhado por um videoclipe no mesmo estilo do primeiro single. A faixa destaca um riff de guitarra marcante, seções de teclado e uma performance vocal envolvente e narrativa. A composição foi inspirada por uma visita de Dickinson ao túmulo do poeta romântico William Wordsworth, no Lake District.

A faixa "Eternity Has Failed" é uma nova versão de "If Eternity Should Fail", com uma melodia revisada e letras ligeiramente diferentes, conferindo à música uma nova perspectiva.

Outras canções do álbum merecem destaque, como “Many Doors To Hell”, “Resurrection Men", “Fingers in the Wounds” e “Shadow Of The Gods”, que Bruce havia planejado gravar em parceria com Rob Halford, vocalista do Judas Priest, e o saudoso Ronnie James Dio, falecido em 2010.

Destaque para as faixas: “Afterglow Of Ragnarok”, “Many Doors To Hell”, “Resurrection Man”, “Shadow Of The Gods” e “Sonata (Immortal Beloved)”.


“Invincible Shield” é um dos maiores discos da carreira do Judas Priest
Fonte: Spotify

Outro grande lançamento de 2024 para o Heavy Metal e o Rock n’ Roll em geral é o brilhante “Invincible Shield" do Judas Priest, lançado em 6 de março.

O disco foi produzido por Andy Sneap, guitarrista de turnê da banda, que também assinou a produção de “Firepower”  de 2018. As duas últimas faixas do disco, "Sons Of Thunder" e "Giants In The Sky", contaram com coprodução de Tom Allom.

No seu lançamento, o disco alcançou a segunda posição na UK Albums Chart, a classificação mais alta da carreira da banda até o momento. Nos Estados Unidos, ficou em 18º lugar na Billboard 200 e liderou a parada Billboard Top Hard Rock Albums, registrando 25.000 unidades vendidas na primeira semana de sua estreia.

Destaque para as faixas: “Panic Attack”, “The Serpent And The King”, “Devil In Disguise”, “Gates Of Hell”, e “As God Is My Witness”. 


Com mais de 50 anos de carreira, o Deep Purple mostra que é possível envelhecer com relevância.
Fonte: Spotify

Em excelente forma e muito ativos, os caras do Deep Purple, com mais de 50 anos de carreira, lançaram “=1”, sendo o 23º álbum de estúdio da banda.

Lançado em 20 de julho de 2024 pela earMUSIC/Edel AG, o disco marca a estreia do guitarrista Simon McBride, que substituiu o guitarrista de longa data Steve Morse em 2022. Além disso, é o quinto álbum da banda produzido por Bob Ezrin, que colaborou com o grupo em todas as produções desde “Now What?!” de 2013.


“=1” foi descrito com um conceito vago que aborda a ideia de que, em um mundo cada vez mais complexo, tudo eventualmente se reduz a uma essência única e unificada, com o tema de que "tudo é igual a um".

O escritor musical John Aizlewood destacou a evolução da voz do cantor Ian Gillan, que ele considerou "mais rica do que nos últimos anos".

Destaque para as faixas: “Show Me”, “Sharp Shooter”, “Portable Door”, “Pictures Of You” e “Lazy Sod”.



Paulo Miklos Ao Vivo foi gravado de modo intimista e é um presente para os fãs multi artista.
Fonte: Spotify

2024 também foi muito importante para a música brasileira, pois Paulo Miklos, o eterno vocalista dos Titãs, presenteou seu público com seu aguardado primeiro álbum ao vivo solo, "Paulo Miklos (Ao Vivo)". Gravado em um momento importante de sua carreira, em março de 2023 no Blue Note, o álbum traz uma seleção cuidadosamente escolhida de 15 faixas que revelam toda a trajetória do artista. Entre elas, estão clássicos imortais dos Titãs, com os quais Miklos conquistou gerações de fãs, além de músicas de sua interessante e pouco explorada carreira solo.

Esse disco ao vivo captura a energia contagiante e a intimidade de um dos shows mais bacanas da música brasileira, onde cada acorde, cada verso, é uma celebração de sua história. 

O disco está disponível em todas as principais plataformas de streaming, e, aparentemente, não será lançado em mídia física.

Destaque para as faixas: “Todo Esse Querer”, “Um Misto De Todas As Coisas”, “Sabotage Está Aqui”, “País Elétrico” e “Vou Te Encontrar”.


Em “From Zero”, o Linkin Park não tenta substituir ninguém, escrevendo um novo e importante capítulo em sua história.
Fonte: Spotify

“From Zero” é o primeiro álbum de estúdio do Linkin Park desde “One More Light” de 2017, marcando o maior intervalo entre lançamentos da banda. Este também é o primeiro trabalho com a vocalista Emily Armstrong e o baterista Colin Brittain, após a morte do icônico vocalista Chester Bennington em 2017 e a saída do baterista Rob Bourdon em 2018. O título do álbum carrega um duplo significado: além de ser uma referência ao nome original da banda, Xero, também simboliza o início de um novo capítulo para o grupo.

Antes do lançamento oficial do álbum, quatro singles foram revelados para o mundo: "The Emptiness Machine", "Heavy Is the Crown", "Over Each Other" e "Two Faced". “From Zero” recebeu críticas geralmente favoráveis da imprensa especializada e se destacou comercialmente, conquistando o primeiro lugar nas paradas de mais de 10 países. Em apoio ao álbum, a banda iniciou a “From Zero World Tour” em setembro de 2024, com previsão de término em novembro de 2025.

Destaque para as faixas: “The Emptiness Machine”, “Heavy Is The Crown”, “Two Faced”, “Overflow” e “Casualty”.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Entre erros e acertos, qual é o saldo definitivo de "Supercharged"? O novo disco do Offspring.


"Supercharged" possui canções poderosas, mas também há músicas embaraçosas e desnecessárias no meio.

Por: Alessandro Costa
19/12/2024



O Offspring é uma das bandas mais populares e influentes do cenário punk rock, formada em 1984 em Garden Grove, Califórnia. Sua formação original contou com o vocalista (e guitarrista em algumas músicas) Dexter Holland, o guitarrista Noodles (Kevin Wasserman), o baixista Greg K. e o baterista Ron Welty. Ao longo dos anos, ocorreram algumas mudanças na formação, como a saída confusa e pouco explicada do baterista Ron Welty em 2001, e, em 2019, a expulsão, que também não foi explicada até hoje, do baixista Greg K.

A banda ficou conhecida por seu estilo energético, letras irreverentes e por misturar elementos de punk, rock alternativo e até pop punk.

O Offspring começou sua carreira tocando em pequenos clubes e lançando álbuns independentes, com destaque para o primeiro disco, "Ignition" de 1992. Contudo, foi o terceiro álbum, "Smash" de 1994, que levou a banda ao sucesso. "Smash" foi um enorme sucesso comercial e incluiu hits como "Self Esteem" e "Come Out and Play", que ajudaram a banda a atingir um público global, tornando-se o disco independente mais vendido da história da música.

Após "Smash", a banda lançou "Ixnay On The Hombre" em 1997, que continuou a trazer sucesso tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo. O álbum seguiu o estilo punk, mas com maior experimentação sonora.

Assim, o Offspring se tornou uma das bandas de rock mais conhecidas do mundo. Com "Americana" lançado em 1998, a banda continuou sua jornada de sucesso com faixas como "Pretty Fly (For A White Guy)" e "Why Don't You Get a Job?", que alcançaram o mainstream. "Conspiracy Of One" de 2000 parece um irmão gêmeo idêntico de "Americana", pois seguiu exatamente a mesma sonoridade e os mesmos tipos de sons variados, destacando faixas como "Want You Bad" e "Original Prankster".

Em 2003, após a saída misteriosa do baterista Ron Welty, lançaram "Splinter", que incluiu o single "Hit That".

Ao longo de sua carreira, a banda experimentou diferentes estilos e manteve sua sonoridade vibrante e cheia de energia, embora tenha recebido algumas críticas pelas mudanças em sua abordagem musical, como no disco "Rise and Fall, Rage and Grace"  lançado em 2008, que, apesar dos sucessos "You're Gonna Go Far, Kid" e "Hammerhead", deixou muitos fãs confusos.

O próximo álbum demoraria um pouco a ser lançado: "Days Go By"  de 2012, que, mesmo com o relativo sucesso da faixa-título, não emplacou grandes sucessos, embora seja um bom disco. Somente em 2021, em plena pandemia, o Offspring lançou um novo álbum, "Let the Bad Times Roll", já sem o baixista Greg K., que chegou às lojas sem grande alarde.

A capa de "Supercharged" pode ser entendida como uma referência/homenagem ao lendário "Smash", o primeiro disco de sucesso do Offspring, lançado em 1994.
Fonte: autor

Agora, em 2024, somos surpreendidos com o anúncio de "Supercharged", lançado 30 anos após o lendário "Smash", e a capa é uma óbvia referência a esse icônico álbum.

Em uma entrevista realizada em setembro de 2022 para a Rádio Rock 89FM, o vocalista Dexter Holland revelou que o Offspring havia iniciado o trabalho no novo material para seu décimo primeiro álbum de estúdio: "Nós queríamos manter as coisas em movimento. Tivemos que tirar um tempo durante a pandemia e sentimos como se fosse um novo começo: 'Estamos de volta, vamos aproveitar ao máximo agora.' Então, começamos a trabalhar em um novo álbum", explicou. Em novembro do mesmo ano, Holland comentou ao Times Colonist que a banda iniciaria as gravações em janeiro de 2023. Em março de 2023, o Offspring anunciou nas redes sociais que estava "de volta ao estúdio".
Em setembro de 2023, quando o guitarrista Noodles foi questionado sobre a sonoridade do novo material — se seguiria uma linha "old-school" ou representaria uma "nova era" para a banda — ele respondeu: "É um pouco de ambos. A última música que fizemos definitivamente tem uma pegada old-school, algo como 'Come Out Swinging' (do disco Conspiracy of One de 2000). Tem um pouco de coisas antigas, algumas mais voltadas para o rock e também um toque de pop punk, sem dúvida."
Em uma entrevista de maio de 2024 com a rádio 99X de Atlanta, tanto Holland quanto Noodles confirmaram que o décimo primeiro álbum da banda estava concluído. Na época, estavam finalizando a arte da capa e decidindo o título. No mês seguinte, foi anunciado que o álbum se chamaria Supercharged e seria lançado em 11 de outubro de 2024. O primeiro single, "Make It All Right", foi lançado em 7 de junho; o segundo single, "Light It Up", saiu em 2 de agosto; e o terceiro, "Come to Brazil", foi lançado em 13 de setembro.


Em comunicado à imprensa, Holland explicou: "Queríamos que este álbum fosse puro em termos de energia — do começo ao fim! É por isso que o chamamos de Supercharged. Falamos sobre tudo nele... desde o auge de nossas aspirações até as profundezas de nossas lutas. É uma celebração da vida que compartilhamos e de onde estamos agora."

As gravações ocorreram em três locais diferentes: Maui, Vancouver e o estúdio da banda em Huntington Beach.

Com produção de Bob Rock, que já havia trabalhado com o Offspring em outros discos, "Supercharged" apresenta 10 músicas inéditas, com Dexter Holland na guitarra e voz, Noodles na guitarra, além dos músicos contratados Todd Morse no baixo, Josh Freeze e Brandon Pertzborn dividindo a bateria em algumas faixas.

“Supercharged” - Faixa a faixa:

“Looking Out for #1” abre o disco com uma programação interessante de teclados, segue de maneira intensa e há uma quebra na ponte que leva ao refrão explosivo. É uma canção potente e poderia muito bem abrir os shows dessa nova turnê. Ao mesmo tempo, me lembra muito um grande sucesso de 2008: "You’re Gonna Go Far, Kid".

A segunda faixa é “Light It Up”, de longe a minha favorita em Supercharged, pois é uma mistura dos melhores hardcores que o Offspring já fez até hoje. Precisa, urgente, enérgica, agradável e que não te deixa respirar. É uma grande música, com a mesma fórmula de sempre que funcionou com louvor e merece um lugar fixo nos shows da banda.

A faixa número 3 é “The Fall Guy”, que já se tornou a favorita de muitos fãs. Apesar de ser uma música até ok, me soa como uma tentativa de repetir a clássica “The Kids Aren’t Alright”, lançada em 1998, no álbum Americana, só que sem a mesma atitude e brilho.

O disco segue com a boba “Make It All Right”, que pode ser considerado um dos pontos mais baixos da carreira do Offspring. Curiosamente, foi o primeiro single de "Supercharged". É outra tentativa forçada de repetir uma fórmula de sucesso do passado. Soa como uma versão "low budget" de “Pretty Fly (For A White Guy)”, tentando ser engraçadinha e pegajosa, mas que não passa de um super constrangimento.

Outra canção constrangedora é “Ok, But This Is the Last Time”, que mais parece um Blink 182 com gases.

“Truth in Fiction” é aquele hardcore bem feito e poderoso que o Offspring sabe fazer muito bem. É uma música animada, super pra cima e que empolga logo nos dois primeiros segundos. Com um riff ao melhor estilo Ramones, a sexta faixa de "Supercharged" é com certeza a minha segunda favorita nesse álbum.

A sétima música é a famigerada “Come To Brazil”, uma boa homenagem a um país que sempre acolheu bem o Offspring e possui fãs fiéis. A música flerta com o heavy metal, com riffs bacanas e espertos. É uma ótima música, seu único defeito é a letra fraca: “So if you wanna party and rock and roll, with a kiss on both cheeks and more churrasco, then bring a lot of guitar picks and Sharpie skills, when you come to Brazil.”

"Supercharged" caminha para a reta final com a interessante “Get Some”, uma canção esperta, que me parece uma fusão super criativa de Rolling Stones com AC/DC, trazendo um frescor diferente para a audição do disco. Um ponto luminoso na carreira da banda, com certeza.

“Hanging by a Thread” é a nona faixa, uma canção simples que não faz feio, sendo um ponto memorável em "Supercharged", com um ótimo refrão que chega a empolgar o ouvinte.

Assim, "Supercharged" encerra-se com chave de ouro: “You Can’t Get There From Here”, que possui uma introdução enigmática e leva a uma grande canção, perfeita para fechar o disco e concluir que, entre algumas músicas fracas, o saldo é ainda muito positivo.


Pontos positivos de "Supercharged"

Eu acompanho o Offspring desde 1999, quando "Pretty Fly (For a White Guy)" estourou nas rádios de todo o Brasil, e, com o passar dos anos, fui acompanhando fielmente todos os seus lançamentos, vivendo cada um deles de maneira única. Por essa razão, o maior ponto positivo de "Supercharged" é o fato de a banda permanecer na ativa e com dignidade. Apesar dos equívocos no álbum, é muito bom ver Dexter e Noodles seguindo em frente, com muito bom humor.

Pontos negativos de "Supercharged"

É claro que, por mais que seja ótimo ver o Offspring em plena atividade, 40 anos depois de sua fundação, existem alguns pontos a serem considerados sobre o novo disco, como o excesso de retoques na voz de Dexter, a sonoridade “achatada” e “industrializada”, a falta de mais pegada e uma produção mais punk no álbum. Senti falta de um contrabaixo mais alto e de um peso maior nas guitarras. Parece que pegaram todos os instrumentos, jogaram em um liquidificador e a sonoridade acabou ficando uniforme demais… O que, por um lado, pode ser positivo se compararmos ao álbum anterior, "Let the Bad Times Roll", que, apesar de contar com grandes canções, tem uma produção mais parecida com uma colcha de retalhos, com cada música soando de uma maneira diferente.

Além disso, querer repetir a fórmula única para emplacar músicas clássicas como “Pretty Fly (For A White Guy)” e “You’re Gonna Go Far, Kid” me soa como uma tentativa desesperada de emplacar um sucesso nas rádios, o que evidentemente não funciona, uma vez que essas músicas foram compostas de forma muito espontânea, e isso é impossível de se repetir.

No mais, "Supercharged" é um bom álbum, mas que deixa a sensação de que a banda deveria ter se preocupado em fazer um disco de peso. Eles já provaram que são bons nisso e poderiam ter esquecido os padrões estabelecidos para tocar no rádio, com um foco maior nos seus fãs e nas pessoas que apreciam e respeitam o trabalho construído ao longo de quatro décadas.

Nota: 8,0

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Charles Gavin Em Primeira Pessoa: Uma Noite Com O Maior Baterista Do Brasil

O evento realizado pelo Sesc 14 Bis contou com a presença de diversos fãs em uma conversa intimista, rica em detalhes e muito bom humor.


Por Alessandro Costa

12/12/2024


Com baú repleto de histórias interessantes, Charles Gavin fez um passeio por toda a sua carreira.

Fonte: autor




A série “Em Primeira Pessoa”, realizada pelo Sesc São Paulo, consiste em conversas com profissionais e artistas do campo da cultura, trazendo autores, músicos e muitas outras personalidades que proporcionam uma positiva diferença artística no Brasil.

O evento da quarta-feira, 4 de dezembro, contou com a presença de Charles Gavin, o eterno baterista dos Titãs, que também desempenha um importante trabalho de produção, pesquisa e curadoria musical, além de realizar outras tarefas, como apresentador.


Gavin chegou ao Sesc 14 Bis, localizado em São Paulo, trazendo uma mochila e um livro. A sala cheia de admiradores saudou o músico que recebeu e devolveu o carinho, já começando a conversa, mediada pelo músico Danilo Moraes, com uma homenagem a Marcelo Fromer, guitarrista dos Titãs falecido em junho de 2001, que completaria 63 anos em 3 de dezembro, lendo um trecho do livro “Você Tem Fome De Quê?” escrito pelo saudoso guitarrista, onde mistura receitas culinárias com a história de diversas canções dos Titãs. Na passagem lida pelo baterista, Fromer comenta como havia sido o, até então, último show de Arnaldo Antunes com os Titãs, em dezembro de 1992, já emendando no surgimento da canção “A Verdadeira Mary Poppins”, gravada no disco “Titanomaquia”, lançado em 1993 e sendo o primeiro registro dos Titãs sem o vocalista.


A conversa continuou com Charles lembrando de como se interessou pela bateria, as primeiras experiências com percussão no colégio, sendo importante ressaltar que o baterista estudou em escolas públicas, passando pela bateria caseira improvisada nos móveis de casa, que rendeu um flagrante divertido dos pais, Laurinda e João, enquanto o futuro baterista tocava de maneira compenetrada.


Santa Gang, Ira!, Cabine C, Jetsons, RPM e Titãs

Foi no almoço do natal de 1984, que Charles foi convidado para entrar para os Titãs.

Fonte: autor.


Charles também falou sobre as primeiras bandas, como o Santa Gang, depois sobre sua passagem fundamental pelo Ira!, banda paulistana que fez história na música brasileira, onde tocou de 1982 até meados de 1984, gravando diversas demos e o primeiro compacto do grupo, que tem “Pobre Paulista” no lado A e “Gritos Na Multidão” no lado B.


E depois, o músico falou sobre o período em que tocou com o RPM, banda que seria um fenômeno na música brasileira durante os anos de 1985 e 1986, vendendo mais de 1 milhão de cópias do disco “Rádio Pirata Ao Vivo”. Neste período em que Charles tocou com Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Fernando Deluqui, eles não fizeram shows, apenas ensaiavam e gravaram demos, uma vez que já havia a possibilidade de gravar o primeiro LP.


Além do Ira! E do RPM, Gavin tocou com o Cabine C, que em sua primeira formação contou com Edgard Scandurra na guitarra, Ricardo Gaspa no baixo, Wania Forghieri nos teclados e o poeta Ciro Pessoa, falecido em maio de 2020, nos vocais. As atividades da banda duraram cerca de 6 meses em 1984, até que se diluiu, e em 1986, Ciro reformou o grupo, dessa vez apenas com mulheres em sua formação.


É essencial ressaltar que, Charles Gavin, Branco Mello (um dos vocalista dos Titãs) e Ciro Pessoa, tiveram uma outra banda chamada Jetsons, que não fez nenhum show, porém ensaiava e escrevia canções de maneira intensa.


Todos esses assuntos foram relatados de maneira extremamente rica e detalhada por Charles, que se lembra exatamente da sequência cronológica dos eventos até a sua entrada nos Titãs, que aconteceu no natal de 1984. Nos Titãs, Gavin gravou discos memoráveis para a música brasileira, como “Cabeça Dinossauro” de 1986, “Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas de 1987, “Go Back” de 1988 e “Õ Blésq Blom” de 1989, bem como cabe uma menção essencial ao “Acústico MTV” de 1997, que vendeu mais de 1 milhão de cópias e rendeu uma gigantesca turnê.


Em 2010, Charles se desliga dos Titãs, depois de 25 anos de estrada. O cansaço físico e mental foi a principal causa do afastamento, que pegou todos os admiradores dos Titãs de surpresa, que receberam a notícia, que já circulava como boato nos grupos de fãs, com enorme tristeza.


Panamericana, Primavera Nos Dentes, Sete Cabeças e Pop 3

Charles Gavin contou tudo sobre os seus projetos após o desligamento dos Titãs.

Fonte: autor.


E como não poderia deixar de ser, Gavin falou detalhadamente sobre seus outros projetos após o desligamento dos Titãs, como a super banda Panamericana, que contava com Dado Villa Lobos (Legião Urbana) na guitarra, Dé Palmeira (Barão Vermelho) no baixo e Toni Platão nos vocais. O grupo fazia versões de clássicos do Rock argentino e uruguaio, chegando a lançar um álbum, o “Sur”.

Seus projetos mais recentes como a banda Sete Cabeças, que toca clássicos de Rita Lee, Cássia Eller e Titãs em formato acústico, além do mais novo de todos, o Pop 3, que apresenta George Israel (Kid Abelha) no sax e vocais, e Henrique Portugal (Skank) nos teclados e vocais, tocando um repertório formado por canções do Skank, Kid Abelha e Cazuza.


Uma proximidade muito especial com Charles Gavin


A trajetória inspiradora de Charles Gavin foi acompanhada com máxima atenção pelo público que encheu a sala 3 do Sesc 14 Bis, e que também participou do papo, fazendo perguntas sobre diversos aspectos do trabalho desempenhado por Gavin, que respondeu tudo com máxima atenção e dedicação, proporcionando uma verdadeira aula de comunicação e história da música, brindando cada presente com uma dinâmica singular e simples, que prende a pessoa pela quantidade incrível dos detalhes, resultado de uma memória impecável e muito bem preservada.


A audiência estava tão conectada com Charles, que acabou ultrapassando o horário previsto para o encerramento da experiência, ganhando 15 minutos de acréscimo. Perguntas sobre variados temas foram feitas, como a sua convivência com Ciro Pessoa, seu trabalho como pesquisador e produtor, os relançamentos em que atuou no começo dos anos 2000, seus tempos iniciais de ensaios com o Ira!, lados B dos Titãs que aprecia e também o tão sonhado lançamento de um box com os discos dos Titãs remasterizados e com canções que permanecem inéditas até hoje.

No meio de tantos assuntos importantes, Charles destacou que em 2025, poderá haver o lançamento do “Acústico MTV” dos Titãs em vinil: “eu mesmo estou cuidando disso, era pra ter acontecido esse ano, mas vamos tentar para o próximo.”.


O pós evento foi ainda mais especial, os presentes formaram uma fila para tirar fotos e conversar com o baterista, que prontamente atendeu um por um, conversando, rindo, autografando LPs e CDs dos Titãs, entre muitas fotos, com uma educação ímpar e simplicidade que é muito incomum aos músicos e artistas do seu calibre.


“Charles Gavin Em Primeira Pessoa” foi aprovado pelo público

Charles Gavin autografando o box “Ira! Demos 83-84” que pertence ao jornalista Jefferson Vicente.

Fonte: autor.


“Charles Gavin Em Primeira Pessoa” mostra a importância desse contato mais próximo do artista com o seu público, e Gavin já está acostumado com isso, pois desde os tempos com os Titãs, sempre garantiu total atenção, carinho e respeito para com as pessoas que apreciam a sua arte.


Como um todo, o evento foi amplamente aprovado pelo público, como ressalta o jornalista Jefferson Vicente, admirador de longa data do trabalho de Charles Gavin, e também todo o Rock brasileiro: “O Sesc é uma das instituições que melhor promove a cultura e o acesso a inúmeros artistas no Brasil. Pra mim, foi como um retorno à universidade, até por ter sido em uma sala de aula, só que com um professor que me ensinou muito sobre música, seja como baterista ou como pesquisador/apresentador. Pra mim, o ponto positivo foi justamente essa proximidade com o Charles Gavin. Foi uma verdadeira aula sobre a história do rock brasileiro e sobre iniciativas da indústria fonográfica.”


O jornalista ainda ressalta que Gavin, como um bom amante da história da música, sempre compartilha um conteúdo rico em suas entrevistas: “Por mais que eu já conhecesse muitas daquelas histórias, sempre é muito agradável ouvir ele contando e sempre tem um detalhe ou outro que acaba se tornando uma novidade pra gente.”

 

Outra admiradora do trabalho de Charles Gavin é a Luana Costa, administradora de empresas, que acompanha a banda desde 2003, que aprovou o evento com louvor, dizendo que “O evento foi incrível, nos deu a oportunidade de conhecer o Charles além de seu talento como baterista excepcional.”.


A forma como o baterista se comunica é notada por todos que podem compartilhar da sua presença e sabedoria, Luana também abordou a importância de estar em um evento desses: “A maneira como Charles narra as histórias faz com que a gente  visualize cada detalhe, isso demonstra o quanto ele se importa com cada relato, a atenção na hora de responder as perguntas feitas por fãs, deixa claro o quanto estar ali naquele momento é importante não só para os fãs mas para ele também.”.


A publicitária Marta Bravo, que acompanha o trabalho de Charles Gavin há 30 anos, destacou a importância desse tipo de evento, uma vez que é uma maneira diferente de estar na presença do músico, em um ambiente diferente da adrenalina dos shows e do backstage, ressaltando o aprendizado oferecido.


Marta ainda acrescenta: “o que eu mais gostei nessa conversa foi a forma com que ele encontrou para aprender e se desenvolver como músico. A pessoa quando tem um dom, as barreiras ficam pequenas e todas as adversidades são superadas. O melhor baterista do Brasil aprendeu tocar num sofá e em listas telefônicas! Sensacional!”.


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