"Supercharged" possui canções poderosas, mas também há músicas embaraçosas e desnecessárias no meio.
Por: Alessandro Costa
19/12/2024
O Offspring é uma das bandas mais populares e influentes do cenário punk rock, formada em 1984 em Garden Grove, Califórnia. Sua formação original contou com o vocalista (e guitarrista em algumas músicas) Dexter Holland, o guitarrista Noodles (Kevin Wasserman), o baixista Greg K. e o baterista Ron Welty. Ao longo dos anos, ocorreram algumas mudanças na formação, como a saída confusa e pouco explicada do baterista Ron Welty em 2001, e, em 2019, a expulsão, que também não foi explicada até hoje, do baixista Greg K.
A banda ficou conhecida por seu estilo energético, letras irreverentes e por misturar elementos de punk, rock alternativo e até pop punk.
O Offspring começou sua carreira tocando em pequenos clubes e lançando álbuns independentes, com destaque para o primeiro disco, "Ignition" de 1992. Contudo, foi o terceiro álbum, "Smash" de 1994, que levou a banda ao sucesso. "Smash" foi um enorme sucesso comercial e incluiu hits como "Self Esteem" e "Come Out and Play", que ajudaram a banda a atingir um público global, tornando-se o disco independente mais vendido da história da música.
Após "Smash", a banda lançou "Ixnay On The Hombre" em 1997, que continuou a trazer sucesso tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo. O álbum seguiu o estilo punk, mas com maior experimentação sonora.
Assim, o Offspring se tornou uma das bandas de rock mais conhecidas do mundo. Com "Americana" lançado em 1998, a banda continuou sua jornada de sucesso com faixas como "Pretty Fly (For A White Guy)" e "Why Don't You Get a Job?", que alcançaram o mainstream. "Conspiracy Of One" de 2000 parece um irmão gêmeo idêntico de "Americana", pois seguiu exatamente a mesma sonoridade e os mesmos tipos de sons variados, destacando faixas como "Want You Bad" e "Original Prankster".
Em 2003, após a saída misteriosa do baterista Ron Welty, lançaram "Splinter", que incluiu o single "Hit That".
Ao longo de sua carreira, a banda experimentou diferentes estilos e manteve sua sonoridade vibrante e cheia de energia, embora tenha recebido algumas críticas pelas mudanças em sua abordagem musical, como no disco "Rise and Fall, Rage and Grace" lançado em 2008, que, apesar dos sucessos "You're Gonna Go Far, Kid" e "Hammerhead", deixou muitos fãs confusos.
O próximo álbum demoraria um pouco a ser lançado: "Days Go By" de 2012, que, mesmo com o relativo sucesso da faixa-título, não emplacou grandes sucessos, embora seja um bom disco. Somente em 2021, em plena pandemia, o Offspring lançou um novo álbum, "Let the Bad Times Roll", já sem o baixista Greg K., que chegou às lojas sem grande alarde.
Agora, em 2024, somos surpreendidos com o anúncio de "Supercharged", lançado 30 anos após o lendário "Smash", e a capa é uma óbvia referência a esse icônico álbum.
Em uma entrevista realizada em setembro de 2022 para a Rádio Rock 89FM, o vocalista Dexter Holland revelou que o Offspring havia iniciado o trabalho no novo material para seu décimo primeiro álbum de estúdio: "Nós queríamos manter as coisas em movimento. Tivemos que tirar um tempo durante a pandemia e sentimos como se fosse um novo começo: 'Estamos de volta, vamos aproveitar ao máximo agora.' Então, começamos a trabalhar em um novo álbum", explicou. Em novembro do mesmo ano, Holland comentou ao Times Colonist que a banda iniciaria as gravações em janeiro de 2023. Em março de 2023, o Offspring anunciou nas redes sociais que estava "de volta ao estúdio".
Em setembro de 2023, quando o guitarrista Noodles foi questionado sobre a sonoridade do novo material — se seguiria uma linha "old-school" ou representaria uma "nova era" para a banda — ele respondeu: "É um pouco de ambos. A última música que fizemos definitivamente tem uma pegada old-school, algo como 'Come Out Swinging' (do disco Conspiracy of One de 2000). Tem um pouco de coisas antigas, algumas mais voltadas para o rock e também um toque de pop punk, sem dúvida."
Em uma entrevista de maio de 2024 com a rádio 99X de Atlanta, tanto Holland quanto Noodles confirmaram que o décimo primeiro álbum da banda estava concluído. Na época, estavam finalizando a arte da capa e decidindo o título. No mês seguinte, foi anunciado que o álbum se chamaria Supercharged e seria lançado em 11 de outubro de 2024. O primeiro single, "Make It All Right", foi lançado em 7 de junho; o segundo single, "Light It Up", saiu em 2 de agosto; e o terceiro, "Come to Brazil", foi lançado em 13 de setembro.
Em comunicado à imprensa, Holland explicou: "Queríamos que este álbum fosse puro em termos de energia — do começo ao fim! É por isso que o chamamos de Supercharged. Falamos sobre tudo nele... desde o auge de nossas aspirações até as profundezas de nossas lutas. É uma celebração da vida que compartilhamos e de onde estamos agora."
As gravações ocorreram em três locais diferentes: Maui, Vancouver e o estúdio da banda em Huntington Beach.
Com produção de Bob Rock, que já havia trabalhado com o Offspring em outros discos, "Supercharged" apresenta 10 músicas inéditas, com Dexter Holland na guitarra e voz, Noodles na guitarra, além dos músicos contratados Todd Morse no baixo, Josh Freeze e Brandon Pertzborn dividindo a bateria em algumas faixas.
“Supercharged” - Faixa a faixa:
“Looking Out for #1” abre o disco com uma programação interessante de teclados, segue de maneira intensa e há uma quebra na ponte que leva ao refrão explosivo. É uma canção potente e poderia muito bem abrir os shows dessa nova turnê. Ao mesmo tempo, me lembra muito um grande sucesso de 2008: "You’re Gonna Go Far, Kid".
A segunda faixa é “Light It Up”, de longe a minha favorita em Supercharged, pois é uma mistura dos melhores hardcores que o Offspring já fez até hoje. Precisa, urgente, enérgica, agradável e que não te deixa respirar. É uma grande música, com a mesma fórmula de sempre que funcionou com louvor e merece um lugar fixo nos shows da banda.
A faixa número 3 é “The Fall Guy”, que já se tornou a favorita de muitos fãs. Apesar de ser uma música até ok, me soa como uma tentativa de repetir a clássica “The Kids Aren’t Alright”, lançada em 1998, no álbum Americana, só que sem a mesma atitude e brilho.
O disco segue com a boba “Make It All Right”, que pode ser considerado um dos pontos mais baixos da carreira do Offspring. Curiosamente, foi o primeiro single de "Supercharged". É outra tentativa forçada de repetir uma fórmula de sucesso do passado. Soa como uma versão "low budget" de “Pretty Fly (For A White Guy)”, tentando ser engraçadinha e pegajosa, mas que não passa de um super constrangimento.
Outra canção constrangedora é “Ok, But This Is the Last Time”, que mais parece um Blink 182 com gases.
“Truth in Fiction” é aquele hardcore bem feito e poderoso que o Offspring sabe fazer muito bem. É uma música animada, super pra cima e que empolga logo nos dois primeiros segundos. Com um riff ao melhor estilo Ramones, a sexta faixa de "Supercharged" é com certeza a minha segunda favorita nesse álbum.
A sétima música é a famigerada “Come To Brazil”, uma boa homenagem a um país que sempre acolheu bem o Offspring e possui fãs fiéis. A música flerta com o heavy metal, com riffs bacanas e espertos. É uma ótima música, seu único defeito é a letra fraca: “So if you wanna party and rock and roll, with a kiss on both cheeks and more churrasco, then bring a lot of guitar picks and Sharpie skills, when you come to Brazil.”
"Supercharged" caminha para a reta final com a interessante “Get Some”, uma canção esperta, que me parece uma fusão super criativa de Rolling Stones com AC/DC, trazendo um frescor diferente para a audição do disco. Um ponto luminoso na carreira da banda, com certeza.
“Hanging by a Thread” é a nona faixa, uma canção simples que não faz feio, sendo um ponto memorável em "Supercharged", com um ótimo refrão que chega a empolgar o ouvinte.
Assim, "Supercharged" encerra-se com chave de ouro: “You Can’t Get There From Here”, que possui uma introdução enigmática e leva a uma grande canção, perfeita para fechar o disco e concluir que, entre algumas músicas fracas, o saldo é ainda muito positivo.
Pontos positivos de "Supercharged"
Eu acompanho o Offspring desde 1999, quando "Pretty Fly (For a White Guy)" estourou nas rádios de todo o Brasil, e, com o passar dos anos, fui acompanhando fielmente todos os seus lançamentos, vivendo cada um deles de maneira única. Por essa razão, o maior ponto positivo de "Supercharged" é o fato de a banda permanecer na ativa e com dignidade. Apesar dos equívocos no álbum, é muito bom ver Dexter e Noodles seguindo em frente, com muito bom humor.
Pontos negativos de "Supercharged"
É claro que, por mais que seja ótimo ver o Offspring em plena atividade, 40 anos depois de sua fundação, existem alguns pontos a serem considerados sobre o novo disco, como o excesso de retoques na voz de Dexter, a sonoridade “achatada” e “industrializada”, a falta de mais pegada e uma produção mais punk no álbum. Senti falta de um contrabaixo mais alto e de um peso maior nas guitarras. Parece que pegaram todos os instrumentos, jogaram em um liquidificador e a sonoridade acabou ficando uniforme demais… O que, por um lado, pode ser positivo se compararmos ao álbum anterior, "Let the Bad Times Roll", que, apesar de contar com grandes canções, tem uma produção mais parecida com uma colcha de retalhos, com cada música soando de uma maneira diferente.
Além disso, querer repetir a fórmula única para emplacar músicas clássicas como “Pretty Fly (For A White Guy)” e “You’re Gonna Go Far, Kid” me soa como uma tentativa desesperada de emplacar um sucesso nas rádios, o que evidentemente não funciona, uma vez que essas músicas foram compostas de forma muito espontânea, e isso é impossível de se repetir.
No mais, "Supercharged" é um bom álbum, mas que deixa a sensação de que a banda deveria ter se preocupado em fazer um disco de peso. Eles já provaram que são bons nisso e poderiam ter esquecido os padrões estabelecidos para tocar no rádio, com um foco maior nos seus fãs e nas pessoas que apreciam e respeitam o trabalho construído ao longo de quatro décadas.
Nota: 8,0


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