Entre clássicos absolutos e lados B interessantes, o primeiro álbum dos Titãs se mostra relevante até os dias de hoje.
Por: Alessandro Costa
11/11/2024
40 anos depois, o primeiro disco dos Titãs ainda possui um lugar especial na música brasileira.
Fonte: autor
Um pouco mal gravado. Sem muita técnica. Porém, com diversas influências, um discurso inteligente e com um desejo forte de ser sucesso em todos os cantos do Brasil, o primeiro registro dos Titãs já era diferente de tudo o que estava acontecendo na música brasileira no ano de 1984.
O Brasil de 1984 era muito diferente do Brasil de 2024, uma vez que a ditadura, embora mostrasse sinais de fraqueza, ainda era decisiva em muitos aspectos da rotina brasileira, especialmente no quesito cultural, pois todos os músicos precisavam submeter as letras de suas canções ao Ofício da Divisão de Censura de Diversões Públicas, que com mãos de ferro decidia o que seria ou não aprovado para as pessoas. Caso a letra fosse censurada, não poderia ser gravada no álbum, e se a ordem não fosse obedecida, o álbum em questão seria riscado, especificamente na faixa censurada, como aconteceu com a banda carioca Blitz, precursora do movimento de bandas de Rock no Brasil nos anos 1980, que teve duas faixas censuradas e riscadas no seu primeiro LP, “As Aventuras Da Blitz”, lançado em 1982, e que apesar das restrições na sua liberdade de expressão, acabou sendo sucesso em todo o Brasil com a música “Você Não Soube Me Amar”.
Do subúrbio paulistano para uma multinacional
A boate gay Village Station costumava receber os shows dos Titãs e muitos outros artistas com frequência
Fonte: Acervo Nando Reis
A banda formada no colégio Equipe em São Paulo, estava em plena atividade desde outubro de 1982, fazendo shows em todos os locais que os aceitassem, eles apresentavam um extenso material autoral, e alguns covers também.
Durante o primeiro ano de atividade, a banda se chamava Titãs Do Iê Iê, e ainda contavam com um 9º elemento: o poeta Ciro Pessoa (1957 - 2020), que reforçava os vocais da banda ao lado de Arnaldo Antunes, Branco Mello, Nando Reis, Paulo Miklos e Sérgio Britto. No momento em que Ciro se desligou da banda, por divergências musicais, o “Iê Iê” caiu junto, e assim a banda passou a se chamar apenas Titãs.
Descobertos pelo produtor Peninha Schmidt, os Titãs foram levados para a gravadora Warner, onde Peninha também atuava como olheiro e estava encarregado de descobrir novos artistas para o elenco da multinacional. Peninha lembra dos Titãs nesse período inicial: “Os Titãs eram a soma de várias bandas, pois essas diferentes faces conseguiram sobreviver na banda. Dentro dessa variedade, eles conseguiram captar o espírito da época, uma coisa de jovens de classe média, mas observando uma sociedade desigual.”
Nando Reis, na época baixista e um dos vocalista dos Titãs, conta como era esse período inicial e o forte desejo que a banda sentia de gravar um LP, sendo parte de uma gravadora: “sempre fez parte do projeto dos Titãs ir para a televisão, ir para uma gravadora, a gente queria tocar no rádio. Então, gravamos fitas demo, algumas vezes indo em estúdios profissionais para poder registrar com melhor qualidade, e outras (vezes) fazendo gravações caseiras mesmo dos ensaios para mandar para todas as gravadoras, e muitas delas nunca se manifestaram, não aceitaram. A primeira que nos aceitou foi a Warner, que fez uma proposta pra gente gravar um compacto, que não aceitamos, porque a banda tinha 5 cantores, e a gente achava que um compacto não mostraria as características da banda, então, recusamos a primeira proposta da Warner.”
Peninha voltou com a recusa para a gravadora que era presidida por André Midani, considerado um visionário dentro do meio empresarial musical, que após insistência do olheiro, concordou em dar um disco completo à banda, algo muito pouco habitual para artistas que estavam começando.
No estúdio Áudio Patrulha
O som do teclado Cassiotone MT-70 foi fundamental para a sonoridade original do primeiro disco dos Titãs.
Fonte: internet
André Jung (bateria), Arnaldo Antunes (vocal), Branco Mello (vocal), Marcelo Fromer (guitarra), Nando Reis (baixo e vocais), Paulo Miklos (teclados, baixo e vocais), Sérgio Britto (teclados e vocais) e Tony Bellotto (guitarra), acompanhados do produtor Peninha Schmidt, entraram no estúdio Áudio Patrulha, localizado em Higienópolis, São Paulo, que, de acordo com Branco Mello, pertencia à Tico Terpins, baixista do Joelho de Porco, uma das mais importantes bandas paulistanas da década de 1970. Curiosamente, o Áudio Patrulha ficava perto da casa dos pais de Sérgio Britto.
O tecladista recorda: “naquela época, a gente tinha instrumentos precários, eu tinha um (teclado) Cassiotone, que era praticamente um brinquedo. Os guitarristas sim tinham guitarras boas, mas não tinham amplificadores, então, o nosso aparato para gravar era muito precário.”
Britto ainda destaca que os produtores e engenheiros de som não permitiam a entrada da banda na sala técnica para fazer comentários e sugestões, lembrando de ter feito o álbum com certa dificuldade nesse sentido e também com muita revolta.
Branco Mello acrescenta que a banda não tinha experiência nenhuma, que o álbum foi gravado em linha (com os instrumentos ligados direto na mesa de som), e a única música que foi gravada com amplificador foi o solo da faixa “Toda Cor”, realizado por Tony Bellotto.
Agora que eu faço sucesso, você não me dá mais sossego
Nando Reis dividiu o baixo com Paulo Miklos durante as gravações do primeiro disco dos Titãs.
Fonte: autor
O resultado final do disco não se parece com nada do que estava acontecendo na música brasileira de 1984. Todas as influências dos Titãs estão preservadas e exaltadas, é possível encontrar a New Wave em “Toda Cor” (Marcelo Fromer, Ciro Pessoa e Carlos Barmack), “Pule” (Arnaldo Antunes e Paulo Miklos), “Babi Índio” (Branco Mello e Ciro Pessoa), “Mulher Robot” (Tony Bellotto) e “Seu Interesse” (Arnaldo Antunes e Paulo Miklos). O Reggae em “Marvin” (Nando Reis e Sérgio Britto), que trata-se de uma versão em português de “Patches” de Clarence Carter, “Go Back” (Sérgio Britto e Torquato Neto), um poema do poeta da Tropicália, Torquato Neto, e “Querem Meu Sangue” (Nando Reis), versão em português de “The Harder They Come” de Jimmy Cliff. A influência essencial dos Beatles em “Balada Para John e Yoko” (Sérgio Britto). Bem como as características básicas da MPB em “Sonífera Ilha” (Branco Mello, Tony Bellotto, Marcelo Fromer, Ciro Pessoa e Carlos Barmack) e até o Brega em “Demais” (Arnaldo Antunes).
O primeiro compacto dos Titãs acabou atrapalhando as vendas do primeiro LP do grupo.
Fonte: autor
Mesmo assim, os Titãs não escaparam do compacto, logo depois que o disco foi lançado, em agosto de 1984, um compacto trazendo duas canções também chegou às lojas, trazendo “Sonífera Ilha” no lado A e “Toda Cor” no lado B. Imediatamente, “Sonífera Ilha” se tornou um grande sucesso nas rádios do Brasil inteiro, e de acordo com os próprios Titãs, isso atrapalhou um pouco as vendas do álbum, que não chegou nem perto das 100 mil cópias e, consequentemente, não se tornou disco de ouro.
O sucesso de “Sonífera Ilha” foi tão grande que rendeu aos Titãs presença garantida nos principais programas de auditório da época, como ainda não haviam programas especializados em música, a solução era fazer a divulgação no Cassino do Chacrinha na TV Globo, Barros de Alencar na Rede Record, Clube do Bolinha na Bandeirantes, entre muitos outros programas que fizeram sucesso na década de 1980.
Para garantirem a atenção do público e não serem confundidos com as bailarinas, assistentes de palco e outras atrações desses programas, os Titãs tiveram aulas de dança com uma professora profissional, e assim desenvolveram a curiosa e divertida coreografia de “Sonífera Ilha”.
Britto lembra: “como a gente sempre gostou de tudo, essas coreografias eram inspiradas naquelas coisas da Motown, aqueles grupos tanto de mulheres quanto de homens que cantavam e dançavam, grupos de Black Music e Soul Music, como Supremes e Jackson 5, tudo era coreografado e cantado, antes de haver o Menudo.”
Assim, “Sonífera Ilha” permitiu que os Titãs pudessem conhecer e tocar em outras regiões do Brasil, como o Nordeste, além de se hospedarem em hotéis melhores. Por outro lado, a música era a única conhecida do grande público durante os shows, e por essa razão era tocada 3 vezes na mesma apresentação: no começo, no meio e no fim.
40 anos depois… Qual o legado deixado pelo primeiro álbum dos Titãs para a música brasileira?
Apesar da produção inexperiente, diversas músicas do primeiro álbum dos Titãs são sucesso até hoje.
Fonte: autor
Embora tenha sido elogiado por diversos veículos de comunicação na época de seu lançamento, como a Folha de São Paulo, o primeiro disco dos Titãs causou certo estranhamento, como lembra o crítico musical Régis Tadeu: ”Na época, uma coisa que me incomodou muito foi o som magrinho. Obviamente, o som saiu magrinho porque os Titãs ainda não eram especialistas em fazer um som que fosse mais encorpado, isso só surgiu com o Liminha. Agora tem um fato lamentável, a (fita) master desse disco foi apagada pela gravadora.”
O jornalista cultural Sérgio Martins diz ter ficado decepcionado quando o disco foi lançado, pois havia assistido os Titãs tocando no programa Fábrica do Som, gravado no Sesc Pompéia e transmitido pela TV Cultura em 1983, antes do lançamento do LP, e ressaltou o quão interessante a banda era e por essa razão esperava um disco com um som melhor resolvido.
Em meio à insatisfação e decepção com o som final do álbum e a qualidade de sua gravação, uma vez que a banda esperava um som mais potente, Sérgio Britto reflete: “acho que tudo isso foi compensado e muito pelo sucesso de ‘Sonífera Ilha’, com fato de tocar no rádio. E hoje em dia, eu vejo que aquela sonoridade, pelo menos para ‘Sonífera Ilha’, ficou adequada, e outras músicas, a gente acabou regravando, o que fez muito sentido, porque elas acabaram ficando não muito bem registradas, por exemplo ‘Go Back’ no disco ‘Go Back’ (1988) e depois no próprio Acústico, e a mesma coisa aconteceu com ‘Marvin’, que são músicas poderiam ter rendido mais já naquele primeiro disco e não renderam.”
Britto ainda pondera sobre a sensação mista em relação ao disco, pois era algo que a banda tinha um desejo muito grande de realizar, mas o resultado acabou sendo frustrante. E com o passar dos anos, o vocalista assegura mudou a sua visão em relação ao registro.
Tony Bellotto possui enorme carinho pelo primeiro disco dos Titãs
Fonte: autor
Em contrapartida, Tony Bellotto achou o disco ótimo. Lembrou da insatisfação dos amigos: “O Branco e o Britto ficaram putos com o som desse primeiro disco, eles diziam que estava uma merda, e eu falava pra eles: ‘vocês estão loucos, a gente tem um disco!’ (risos)”, e continua: “é engraçado, isso mostra muito como são as nossas personalidades, como elas se complementam e se completam em uma banda.”
Bellotto finaliza: “No fim das contas, eu acho que hoje em dia, todos nós concordamos que o nosso primeiro disco é muito legal do jeito que é, e é claro que expressa a nossa inexperiência, a nossa imaturidade, mas ao mesmo tempo tem uma coisa criativa muito forte que ficou registrada ali. Eu lembro sempre dessa situação, da gente ouvindo nosso primeiro disco pronto e tendo opiniões diferentes, e eu acho que isso reflete e mostra muito do que é uma banda e como funciona uma banda.”
A prova da relevância do primeiro álbum dos Titãs pode ser encontrada no número de regravações que diversos artistas da música brasileira fizeram de algumas faixas desse disco. Por exemplo, “Sonífera Ilha” é presença garantida em diversos bailes de carnaval e trios elétricos, e também já foi regravada por Pato Fu, Blitz, Flying Chair, Quizomba, Paulinho Moska, Moraes Moreira, Os Paralamas Do Sucesso, Bailinho de Quinta, Vingadores do Brega, Maria Luiza, Tomate, entre muitos outros.
“Marvin”, além de ser regrada pelo próprio Nando Reis em seus álbuns solos, também já regravada recentemente pelos próprios Titãs com a participação especial do cantor Vitor Kley, além de ter marcado presença nos álbuns de Paulo Ricardo, Biquini Cavadão, Jeito Moleque, Big Beto, e outros.
“Babi Índio” chegou a ser regravada pela banda Flying Chair, o último projeto de Ciro Pessoa, que contou com a participação especial de Branco Mello, uma vez que Ciro e Branco escreveram a canção juntos, que de acordo com relato pessoal de Ciro Pessoa, a dupla escreveu a música na base de muita maconha.
“Go Back” também já foi regravada pelos Paralamas Do Sucesso, Zeca Baleiro, Patrícia Amaral e Patrícia Marx.
Outra faixa desse disco que foi regravada e fez um enorme sucesso, foi “Querem Meu Sangue”, presente no álbum “Sobre Todas As Forças” de 1994, lançado pelo Cidade Negra.
Mas os fãs dos Titãs têm um carinho especial com esse registro, como é o caso da administradora de empresas, Luana Costa, de 28 anos, que começou a acompanhar a banda em 2003. A fã lembra da primeira vez que ouviu o disco, embora fosse muito pequena, ficou fascinada com a introdução da faixa “Babi Índio”, sendo a sua favorita desse álbum. Além disso, a administradora ressalta que a capa do álbum lhe chamou muito a atenção: “Eram 8 pessoas, não é nada comum, mas isso só mostra o quanto eles sempre foram autênticos e foram contra todos os padrões de ‘banda ideal’ desde o início.
Sobre as músicas desse álbum que não podem faltar nos shows dos Titãs, Luana pensa diferente da maioria: “Não tenho certeza se eles já tocaram em algum show, mas eu adoraria ter escutado “Babi Índio” em algum show deles.”
Dênis Vianna, admirador de longa data da banda, acompanha de perto o trabalho dos Titãs desde o final dos anos 1980 e possui uma vasta coleção titânica, que inclui os álbuns oficiais, fitas VHS, DVDs, discos bootlegs, materiais de revistas, jornais e muitos outros itens incríveis e muito raros que nem os próprios Titãs possuem. Além disso, Dênis também conta com uma página no Instagram e um canal no YouTube chamados Arquivo Titãs, onde compartilha, diariamente, conteúdos pouco conhecidos e inéditos de seu próprio acervo.
Vianna lembra da sua primeira experiência com esse disco: “O primeiro disco dos Titãs foi o último que eu ouvi quando me tornei fã. O disco atual deles na época era o “Ô Blésq Blom”, aí fui adquirindo os outros até conseguir comprar o disco de 84, que era o mais raro na época de conseguir. Eu só conhecia “Sonifera Ilha”, lembro dela da época, mas para mim era apenas uma música conhecida, assim como tantas outras dos anos 80. Assim que ouvi o disco, ainda em vinil, lembro de achar estranhas as versões de “Marvin” e “Go Back”, já estava acostumado com elas nas versões do ao vivo.
As outras músicas devo ter tido essa mesma sensação de estranheza, pois eram bem diferentes do que já conhecia deles e do que a banda estava fazendo atualmente, nessa altura já tinham lançado o “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”. Mas logo entendi que era o início de tudo e aprendi a gostar e valorizar muito esse disco.
A relação dos fãs dos Titãs com canções menos conhecidas do grande público é muito curiosa, e o primeiro álbum da banda possui muitas pérolas, que aqui foram lembradas por Dênis: “Acho que o ‘Lado B’ que eu mais gosto desse disco é ”Balada Para John e Yoko”, fui conhecer a versão original dos Beatles muito tempo depois”.
E 40 anos depois, qual o legado esse álbum deixa para o público fiel que acompanha os Titãs? Vianna responde: “Acho que ele envelheceu bem sim, 40 anos se passaram e muito do que a banda veio a se tornar você já encontra nesse disco: a originalidade dos arranjos, a diversidade de estilos, a criatividade nas letras, o rodízio nas parcerias e nos instrumentos. Enfim, é um grande disco de estréia.”
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