quinta-feira, 2 de outubro de 2025

The Sisters Of Mercy transformam nostalgia e novidade em catarse coletiva em São Paulo

Entre hinos como “Temple of Love” e “Lucretia, My Reflection”, além de faixas inéditas, o público viveu uma experiência que reafirma a lenda da banda.

Por: Alessandro Costa.

A apresentação dos Sisters Of Mercy mostrou a relevância do grupo.
Fonte: Alessandro Costa

A apresentação, já considerada histórica, dos britânicos do The Sisters Of Mercy, no Tokio Marine Hall, em São Paulo, no dia 26 de setembro de 2025, foi um verdadeiro marco de celebração do pós-punk e também do gótico, ainda que o vocalista Andrew Eldritch sempre tenha rejeitado esse rótulo.

Criada em Leeds, Inglaterra, em 1980, a banda surgiu da parceria entre Eldritch e Gary Marx, tornando-se rapidamente uma referência no cenário alternativo. Com os vocais graves e melancólicos do frontman, guitarras intensas, baixo pulsante e a lendária bateria eletrônica batizada de Doktor Avalanche, o grupo construiu uma identidade singular, que os destacou no underground britânico. Nos primeiros anos, lançaram singles cultuados como “Alice” (1982), “Temple Of Love” e o EP “Reptile House (ambos de 1983), que já antecipavam o amadurecimento criativo do coletivo.

Em 1985, veio o álbum de estreia “First And Last And Always, consolidando seu nome na cena alternativa. Pouco depois, Eldritch assumiu o controle artístico e, com diferentes formações, lançou discos que se tornaram clássicos do gênero: “Floodland” (1987), marcado pelos hinos “This Corrosion” e “Lucretia, My Reflection”, e “Vision Thing” (1990), que trouxe uma sonoridade mais voltada ao hard rock, eternizando o sucesso “More”, sendo o último disco de estúdio lançado pela banda.

Apesar de não lançar material inédito em estúdio desde 1993, os Sisters Of Mercy continuam ativos, sustentado por uma base de fãs leais ao redor do mundo. Seus concertos mesclam sucessos de várias fases com composições novas ainda não registradas oficialmente, mantendo viva a aura sombria e magnética que tornou o grupo uma das formações mais influentes do rock alternativo.

O público brasileiro fiel aguardou ansiosamente pela entrada da banda no palco do Tokio Marine Hall.
Fonte: Alessandro Costa

Ao longo de mais de 20 passagens pelo Brasil, o grupo tem se apresentado com frequência no Tokio Marine Hall, localizado na Chácara Santo Antônio, em São Paulo, uma das principais casas de espetáculos do país, com capacidade para cerca de 4 mil pessoas. O espaço de 6 mil m² conta com palco amplo, camarins, estrutura de som e luz, áreas VIP, serviço de bar e acessibilidade completa, incluindo tradução em libras, audiodescrição e banheiros adaptados. Inaugurado originalmente como Tom Brasil, rebatizado depois como HSBC Brasil, passou a se chamar Tokio Marine Hall em 2022, quando a seguradora adquiriu os naming rights e investiu em modernização e projetos de inclusão cultural. Desde então, já recebeu milhares de atrações nacionais e internacionais, de música, teatro e humor, reunindo mais de 16 milhões de espectadores e consolidando-se como referência do entretenimento paulistano.

O público presente era bastante diverso, reunindo desde adolescentes em seus primeiros shows, como Winy, de 20 anos, e Abbi, de 36 anos, que capricharam em uma maquiagem branca com detalhes escuros, até pessoas que testemunharam o auge do Rock’n’Roll nos anos 70. O que mais chamou a atenção foi a quantidade de fãs devidamente caracterizados com vestimentas “góticas”: longos vestidos pretos, coturnos, maquiagem carregada e acessórios sombrios, ignorando completamente o fato de a própria banda não se considerar parte desse movimento.

Essa é a segunda vez que o 3 Pipe Problem fez a abertura de um show dos Sisters Of Mercy, a primeira foi em 2023.
Fonte: Alessandro Costa

A noite começou com a abertura da banda brasileira 3 Pipe Problem, que, cantando em inglês e carregando nas guitarras, empolgou o público que aguardava ansiosamente a atração principal. O ponto alto do set foi um cover enérgico de “Save A Prayer”, dos igualmente britânicos do Duran Duran, que arrancou aplausos calorosos dos presentes que cantaram junto em cada palavra.

Andrew Eldritch entregou uma performance íntima e poética.
Fonte: Alessandro Costa

Pontualmente às 22h, Ben Christo, integrante desde 2005, e o mais recente guitarrista, Kai (na formação desde 2023), surgiram à frente de Andrew Eldritch. Sob a trilha de introdução, o grupo abriu com a inédita “Don’t Drive On Ice”, que, mesmo fora de qualquer álbum ou plataforma digital, fez o público delirar diante da performance arrebatadora.

O grande destaque desta turnê são justamente as faixas novas que ainda não integram a discografia oficial. Além de “Don’t Drive On Ice”, o setlist trouxe “Crash And Burn”, “I Will Call You”, “Summer”, “But Genevieve”, “Eyes Of Caligula”, “Here” (em que Eldritch arriscou um “por aqui” em português), “Quantum Baby”, “On The Beach” e “When I’m On Fire”. Apesar do estranhamento inicial, todas foram recebidas com entusiasmo, como se já fizessem parte da memória afetiva dos fãs.

Mas o êxtase veio com os clássicos já consagrados, como “Doctor Jeep” emendada a “Detonation Boulevard”, a inoxidável “More”, “Dominion/Mother Russia”, “Marian”, “Giving Ground” (faixa pouco conhecida, lançada em 1986 no projeto paralelo The Sisterhood), “Temple Of Love”, além do bis arrebatador com “Neverland”, “Lucretia, My Reflection” e “This Corrosion”, que encerrou a noite em clima apoteótico.

O já veterano Ben Christo mandou riffs espertos e até assumiu o baixo durante a música “Neverland”.
Fonte: Alessandro Costa

A química entre os músicos e a presença de palco marcaram a apresentação. Apesar da fumaça e do espetáculo de luzes, Andrew, Ben e Kai mostraram-se conectados, interagindo de forma natural e entregando uma performance intensa e genuína.

Toda a atenção se concentrou no palco, os telões laterais foram desligados assim que a banda iniciou o repertório, reforçando a filosofia estética e conceitual preservada há mais de quatro décadas.

Kai mostrou estar bem conectado com o repertório e com o público.
Fonte: Alessandro Costa

E permanece a questão difícil de responder: como um grupo que não lança um álbum de inéditas desde 1990 consegue manter tamanha devoção em escala global? Nostalgia? A qualidade incontestável de um legado bem construído? A forma como suas canções ainda dialogam com diferentes gerações? Talvez seja tudo isso, e mais.

O que se sabe é que Andrew Eldritch é visto quase como uma entidade por seus seguidores — um poeta que traduz questões profundas de modo direto e único, e que ao vivo mantém sua presença magnética sem recorrer a artifícios, corridas ou exageros de palco.

Com o público inteiro cantando os versos de “This Corrosion”, os Sisters Of Mercy encerraram uma noite histórica.
Fonte: Alessandro Costa

Set list:

• Don’t Drive On Ice
• Crash And Burn
• Ribbons
• Doctor Jeep + Detonation Boulevard
• More
• I Will Call You
• Alice
• Dominion / Mother Russia
• Summer
• Giving Ground
• Marian
• But Genevieve
• Eyes Of Caligula
• Here
• Quantum Baby
• On The Beach
• When I’m On Fire
• Temple Of Love

Encore:
• Neverland
• Lucretia, My Reflection • This Corrosion

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Arnaldo Antunes lota Sesc Pinheiros em noite de celebração à música brasileira

 Show reuniu canções novas, clássicos da carreira, poesia e a energia única do artista que emocionou o público presente

Por: Alessandro Costa


Durante sua turnê “Novo Mundo”, essa é a primeira vez que Arnaldo Antunes leva o show ao Sesc Pinheiros.
Fonte: Alessandro Costa

O multi-artista paulistano de 65 anos, Arnaldo Antunes, realizou uma breve temporada no Sesc Pinheiros, em São Paulo, nos dias 12, 13 e 14 de setembro, com ingressos esgotados nas três datas. O multiartista paulistano possui 45 anos de carreira e segue realizando trabalhos novos. Seu álbum mais recente, “Novo Mundo”, lançado em março de 2025, era a base da apresentação, que já passou por diversas capitais brasileiras, como Belo Horizonte, Recife, Brasília, Rio de Janeiro, entre muitas outras.

O currículo de Arnaldo é muito extenso, uma vez que, antes de fundar os Titãs, em 1982, ao lado de André Jung, Branco Mello, Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Tony Bellotto, o artista já havia feito parte da Banda Performática, do artista plástico e vanguardista paulistano Roberto Aguilar, que gravou um único LP, com produção do cantor Belchior, lançado em 1982.

A ascensão de Arnaldo com os Titãs aconteceu em 1984 e teve sua consolidação em 1986, com o lançamento do furioso disco “Cabeça Dinossauro”, que levou os Titãs ao conhecimento nacional. Outros discos históricos vieram na sequência: “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” (1987), “Go Back” (1988) e “Õ Blésq Blom” (1989).

1991 marcou o lançamento do último trabalho de canções inéditas de Arnaldo com os Titãs, “Tudo ao Mesmo Tempo Agora”, que saiu em setembro daquele ano, rendendo uma turnê de mais de um ano. Em dezembro de 1992, Arnaldo deixou o grupo para seguir em carreira solo, uma vez que não conseguiu conciliá-la com a agenda cheia que a banda mantinha. Ao lado dos Titãs, Arnaldo produziu seis álbuns de estúdio e um ao vivo, além de ter feito participações especiais em outros discos da banda.

Na década de 1990, o artista realizou diversos trabalhos musicais e poéticos, além de expressões artísticas gráficas, com várias parcerias de sucesso, como a formação do trio Tribalistas, que, junto de Marisa Monte e Carlinhos Brown, conquistou sucesso também internacional. Essa parceria rendeu dois discos: o primeiro lançado em 2002 e o segundo em 2017, que possibilitou, pela primeira vez, uma gigantesca turnê com ingressos esgotados na maioria dos locais por onde passou.

Além dos Titãs e dos Tribalistas, Arnaldo colaborou com a trilha sonora para o musical Corpo, de 2000, e também participou ativamente do projeto infantil Pequeno Cidadão, em 2009, bem como gravou o álbum “A Curva da Cintura”, ao lado do guitarrista Edgard Scandurra e do músico malinês Toumani Diabaté, em 2011.

Em sua trajetória, o cantor gravou catorze discos de estúdio e quatro registros ao vivo.

Em 2022, foi anunciado que os Titãs iriam reunir parte de sua formação clássica, com exceção do guitarrista Marcelo Fromer, falecido em junho de 2001, para uma série de shows que evoluiu para uma grandiosa turnê com ingressos esgotados em diversas cidades do Brasil.

Teste de luzes realizado pouco antes do show começar, para garantir que tudo estava certo.
Fonte: Alessandro Costa

Já depois do êxito da turnê Titãs Encontro, Arnaldo voltou sua atenção à produção de mais um trabalho solo. “Novo Mundo” foi lançado em março de 2025 e traz canções que dialogam com a realidade mundial, além de apresentar participações muito especiais: o americano David Byrne, líder e cantor da banda Talking Heads, nas faixas “Corpo” e “Não Dá Para Ficar Parado Aí na Porta”; Marisa Monte em “Sou Só”; e Ana Frango Elétrico em “Pra Não Falar Mal”.

O Sesc Pinheiros permanece como um dos principais redutos de cultura do Brasil.
Fonte: Alessandro Costa

A turnê do álbum começou com um ensaio aberto no Sesc Pompeia, em São Paulo, em abril de 2025, e logo se estendeu para diversas cidades brasileiras, chegando ao Sesc Pinheiros em setembro, onde esgotou os ingressos para as três noites.

O Sesc Pinheiros é um centro cultural e de lazer situado à Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo/SP. Inaugurado em setembro de 2004, o espaço foi projetado pelo arquiteto Miguel Juliano e ocupa cerca de 35.000 m². Conta com o Teatro Paulo Autran, com capacidade para 1.010 lugares, piscinas, quadras esportivas, restaurante, espaços para exposições, lojas, auditório, entre outros serviços culturais e de convivência. O Sesc Pinheiros se destaca por oferecer uma programação ampla em artes, esporte e lazer, sendo reconhecido como referência cultural em São Paulo. 

Durante a música de abertura, Arnaldo Antunes permanece dentro dessa espiral de luz.
Fonte: Alessandro Costa

O espetáculo da noite de sábado (13/09) começou pontualmente às 20h10, respeitando o tradicional acréscimo de dez minutos para o público se organizar adequadamente, com um verdadeiro show de luzes. Os músicos que acompanham Arnaldo nessa turnê, Chico Salém (guitarra e violão), Betão Aguiar (baixo e teclados), Curumin (bateria), Vitor Araújo (teclados) e Kiko Dinucci (guitarras), entraram primeiro, fazendo uma introdução instrumental da faixa de abertura, “Novo Mundo”, enquanto Arnaldo entrou em cena logo depois, vestido totalmente de preto, levando o público presente no Teatro Paulo Autran ao êxtase total.

Em vários momentos, o artista se aproximou de seu público.
Fonte: Alessandro Costa

Foram 21 músicas apresentadas, em sua maioria faixas do novo álbum, além de jóias da carreira solo de Arnaldo, “Já Sei Namorar” e “Passe em Casa”, dos Tribalistas, e “O Pulso” e “Comida”, dos tempos de Titãs. Além dessas canções previstas no setlist, uma música extra foi tocada de improviso durante um momento em que houve uma pane no equipamento de Kiko Dinucci. Arnaldo cantou “O Real Resiste” à capela, enquanto o problema era resolvido, mas a banda, muito bem ensaiada, o acompanhou de maneira impecável. Antes de iniciar a música, o artista disse que faria aquilo em referência à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, na trama golpista que arquitetou um golpe de Estado no Brasil.

O show de luzes à parte de luzes continua durante a música nova “O Amor É A Droga Mais Forte”.
Fonte: Alessandro Costa

O grande diferencial e maior ponto de atenção desse novo show, além da qualidade do setlist apresentado, é o espetáculo de luzes no palco, que acaba se tornando parte essencial da apresentação e proporcionando uma atmosfera envolvente, permitindo que cada canção seja apreciada de modo individual, sem perder a coletividade, a poesia concreta e a energia.

Durante a música “Debaixo D’água”, que nas palavras de Arnaldo era para lembrar os tempos em que vivíamos na barriga da mamãe.
Fonte: Alessandro Costa

O público presente no Sesc Pinheiros era formado por pessoas de várias idades. Homens, mulheres e até crianças estavam unidos em uma só corrente, com o objetivo de prestigiar Arnaldo, sua banda e a música feita no Brasil. Vale lembrar que essa breve temporada aconteceu no mesmo fim de semana em que a cidade de São Paulo recebeu o festival The Town, com diversos artistas internacionais, como Mariah Carey, Katy Perry, Lionel Richie, entre outros. Assim, a maior parte dos presentes não fez uso intenso de celular durante o espetáculo. Fotos eram tiradas, pequenos vídeos eram gravados, mas tudo de forma breve. Durante a música “Socorro”, Arnaldo deixou o microfone aberto para o público cantar os versos finais, e a missão foi cumprida com êxito: todos cantaram em alto e bom som, emocionando o cantor, que agradeceu e fez uma saudação ao seu público fiel.

O público fiel e em sua maioria longe do celular, foi testemunha de uma noite especial.
Fonte: Alessandro Costa

A apresentação durou pouco mais de uma hora, quando Arnaldo anunciou que “Passe em Casa” seria a última. Porém, dois minutos depois de saírem do palco, Arnaldo e banda voltaram e tocaram mais duas músicas: “Fora de Si” e “Comida”. Nesse momento, boa parte do público abandonou suas cadeiras e correu para a frente do palco, compartilhando um momento único e de pura troca de energia com um dos maiores artistas da cultura brasileira.

Após a execução da última música, Arnaldo e sua incrível banda fizeram mais uma saudação carinhosa e agradeceram pela noite.

Ao final do espetáculo, Arnaldo e banda agradecem o carinho do público.
Fonte: Alessandro Costa

“Novo Mundo” o álbum e o espetáculo reafirmam a força da música brasileira, a resistência da arte, a honestidade do trabalho de qualidade e, acima de tudo, comprovam que é possível um artista com mais de 40 anos de carreira se reinventar e continuar relevante, com muita lenha pra queimar ainda.

A turnê continua com mais shows confirmados em todo o Brasil ao longo de 2025 e promete seguir em frente em 2026.

Setlist:

  • Novo Mundo

  • O Amor É a Droga Mais Forte

  • O Pulso

  • É Primeiro de Janeiro

  • Se Assim Quiser

  • Já Sei Namorar

  • Sem Você

  • Viu Mãe?

  • Pra Não Falar Mal

  • Debaixo D’água

  • Pedido de Casamento

  • Tire o Seu Passado da Frente

  • Cultura

  • A Casa É Sua

  • Body Corpo

  • O Real Resiste

  • Pra Não Ficar Parado Aí na Porta

  • Socorro

  • Tanta Pressa Pra Quê?

  • Passe em Casa


Bis:
  • Fora de Si

  • Comida










quarta-feira, 9 de abril de 2025

“Balls To The Wall Reloaded”: É realmente necessário?

Udo Dirkschneider , lendário e eterno vocalista do Accept, regravou e lançou, ao lado de vários convidados especiais, um dos álbuns de maior importância de sua discografia e do Heavy Metal, mas será que era algo tão indispensável assim?


Por: Alessandro Costa


Junto com diversos artistas importantes do Heavy Metal, Udo dá uma nova cara a um clássico inquestionável.
Fonte: Spotify

Udo Dirkschneider é um dos nomes mais emblemáticos do Heavy Metal mundial, conhecido principalmente por sua trajetória à frente da banda alemã Accept e, posteriormente, por sua carreira solo. Nascido em 6 de abril de 1952, em Wuppertal, na Alemanha, Udo iniciou sua jornada musical no começo dos anos 70, tornando-se famoso como vocalista do Accept, banda que fundou por volta de 1968, com formação consolidada em 1976.

O Accept se destacou na década de 80, durante a ascensão do Heavy Metal na Europa e no restante do mundo. Com seu vocal rouco, agudo e agressivo, Udo se tornou uma das características mais marcantes do grupo. O terceiro álbum do Accept, "Breaker" de 1981, foi o primeiro a alcançar maior notoriedade dentro do cenário do metal pesado, seguido por outro trabalho de grande sucesso, "Restless And Wild" de 1982.

No entanto, foi o disco "Balls To The Wall", lançado em dezembro de 1983, que se consolidou como o maior marco da carreira da banda, com a música-título se tornando um verdadeiro hino do Metal e presença obrigatória nos shows do Accept e na carreira solo de Udo. O sucesso e a ascensão do Accept seguiram com os álbuns seguintes, como "Metal Heart" de 1985, uma tentativa clara de conquistar o mercado americano, e "Russian Roulette" de 1986. Durante esse período, Udo ajudou a moldar o som pesado e direto do Accept, que viria a se tornar uma referência para o gênero.

Em 1987, Udo foi convidado a se retirar do Accept devido a diferenças criativas e pessoais, além da mudança da banda em direção a uma sonoridade mais comercial e voltada ao mercado americano. Ele então formou sua própria banda, U.D.O., continuando a desenvolver seu estilo de Metal tradicional, com influências do Power Metal e Speed Metal. O álbum de estreia, "Animal House" 1987, trouxe a pegada característica de Udo, com riffs marcantes e letras diretas. Esse disco foi composto em sua totalidade pelos membros do Accept, como forma de apoiar o antigo vocalista. A banda seguiu com uma série de álbuns importantes, incluindo "Faceless World" de 1990 e "Timebomb" de 1997, mantendo-se fiel ao seu estilo e preservando sua base de fãs leal.

Além de seu trabalho com U.D.O., o cantor também colaborou com outros artistas e bandas em projetos como German Metal Gods e gravou álbuns de tributo.

Em 2005, Udo retornou ao Accept para uma turnê de reunião, mas sua passagem pela banda foi breve, e ele voltou a focar em sua carreira solo.

Udo expressou em várias entrevistas sua insatisfação com a perda dos direitos sobre o nome da banda. Em uma conversa com o canal Simfonia Metàl·lica, ele lamentou não ter prestado atenção aos documentos que assinava nos anos 80, o que resultou na transferência dos direitos do nome para o guitarrista e único membro remanescente da formação clássica do Accept, Wolf Hoffmann, considerando isso o maior erro de sua carreira.

Além disso, em entrevista ao podcast Scars And Guitars, Udo falou sobre a possibilidade de gravar um álbum com o Accept. Embora todos possam reinterpretar as músicas do disco "Balls To The Wall", desde que não alterem os arranjos, ele mencionou que não houve comunicação com Hoffmann sobre essa ideia. Udo destacou que, devido à perda dos direitos sobre o nome da banda, uma reunião ou colaboração oficial é improvável.

Nos últimos anos, Udo tem se concentrado em sua carreira solo, além de lançar álbuns ao vivo e materiais especiais. Sua habilidade em manter uma sonoridade autêntica e sua energia no palco o mantiveram relevante no cenário do Heavy Metal, mesmo após décadas de carreira.

Em 2021, Udo colaborou com antigos membros do Accept, o baixista Peter Baltes e o baterista Stefan Kaufmann, em uma canção chamada "Where The Angels Fly". Baltes, após deixar o Accept em 2018, ingressou na banda de Udo.

"Balls To The Wall" - Reinterpretado

Em 2024, foi anunciado que Udo, acompanhado da banda Dirkschneider, lançaria uma reinterpretação do icônico álbum "Balls To The Wall". A nova versão, intitulada "Balls To The Wall Reloaded", foi disponibilizada em 28 de fevereiro de 2025, como uma homenagem aos 40 anos do lançamento do disco original, considerado por muitos o trabalho mais clássico do Accept.

Este projeto oferece uma nova perspectiva sobre as músicas que marcaram uma geração. Desde o início, Udo destacou que a regravação não se tratava apenas de um tributo, mas de uma celebração da duradoura influência do álbum. Para tornar a homenagem ainda mais especial, ele convidou diversos artistas renomados do Metal para reinterpretar as faixas do disco, cada uma com a participação de um cantor ou cantora distinto (a), proporcionando variações nas composições.

Entre os convidados de peso estão grandes nomes como Joakim Brodén (Sabaton), Biff Byford (Saxon), Mille Petrozza (Kreator), Nils Molin (Dynazty/Amaranthe), Michael Kiske (Helloween), Ylva Eriksson (Brothers of Metal), Danko Jones, Dee Snider (Twisted Sister), Tim "Ripper" Owens (KK's Priest / ex-Judas Priest) e Doro Pesch. Cada um desses artistas trouxe sua própria assinatura ao repertório de "Balls To The Wall", enriquecendo ainda mais a obra original com novas energias.

A formação da banda que acompanha Udo neste projeto conta com músicos talentosos: Andrey Smirnov e Fabian Dee Dammers nas guitarras, Peter Baltes no baixo e Sven Dirkschneider (filho de Udo) na bateria. A produção manteve a essência das faixas originais, mas introduziu uma sonoridade mais moderna, limpa e definida, ampliando ainda mais a complexidade das músicas.

"Balls To The Wall Reloaded" está disponível em diversas plataformas, incluindo formatos físicos como CD e vinil, proporcionando aos colecionadores e fãs uma experiência ainda mais completa.

"Balls To The Wall Reloaded": Faixa a faixa

Como não poderia deixar de ser, o disco já abre com a icônica faixa-título, "Balls To The Wall", um dos maiores clássicos do Accept, que aborda a escravidão humana ao longo da história. O arranjo é idêntico ao da versão original, nota por nota. O riff clássico da introdução é executado de forma impecável, fazendo com que pareça que estamos ouvindo a gravação original com Wolf Hoffmann, de maneira histórica e impressionante.
O único ponto negativo aqui é a participação de Joakim Brodén, vocalista do Sabaton. Seu timbre não combina com a intensidade e a gravidade que uma música como "Balls To The Wall" exige, o que torna a sua performance um tanto desconfortável, sendo salva apenas pelos vocais de Udo.

A segunda faixa é "London Leatherboys", que mantém o mesmo arranjo original, com a clássica linha de baixo de Peter Baltes, conduzindo a canção com precisão. A participação de Biff Byford, vocalista do Saxon, foi uma excelente escolha, e sua performance ao lado de Udo é notável.

A sequência segue com "Fight It Back", que conta com Mille Petrozza, guitarrista e vocalista do Kreator. A colaboração preservou a essência da canção, dando-lhe um toque moderno e revigorante.

A quarta faixa, "Head Over Hills", apresenta a histórica introdução de baixo, reproduzida com maestria por Peter Baltes. Nils Molin, do Dynazty/Amaranthe, divide os vocais com Udo, e juntos entregam uma performance de altíssimo nível. Este é, sem dúvida, um dos melhores momentos do álbum.

"Losing More Than You Ever Had" vem a seguir, destacando-se por tratar de temas mais profundos do que os tradicionais do Heavy Metal. A colaboração de Michael Kiske, do Helloween, foi um acerto absoluto, e sua voz se encaixou perfeitamente com a de Udo, criando uma combinação única.

A clássica "Love Child" é a sexta faixa, e aqui Udo divide os vocais com Ylva Eriksson, do Brothers Of Metal. A parceria é brilhante, e o vocal poderoso de Ylva complementa perfeitamente a energia de Udo.

Na sétima faixa, "Turn Me On", Danko Jones faz um ótimo contraponto com seus vocais graves no refrão, enquanto Udo brilha com seu timbre agudo e forte.

"Losers And Winners" é uma das grandes atrações deste álbum, com Dee Snider, do Twisted Sister, acompanhando Udo. A performance de Snider, com sua voz madura e cheia de qualidade, é um dos destaques do projeto.

A penúltima faixa, "Guardian Of The Night", traz Tim "Ripper" Owens, ex-Judas Priest e atual cantor do KK Priest. Seu vocal versátil se encaixou perfeitamente com a música, proporcionando um momento de grande qualidade ao lado de Udo.

E, como esperado, a última canção é "Winterdreams", uma das baladas mais belas do Heavy Metal. Aqui, Udo divide os vocais com a lendária Doro Pesch, e juntos criam um dos momentos mais sensíveis e potentes do álbum.

"Balls To The Wall Reloaded": Ponto negativo e pontos positivos

O único ponto negativo é a bateria, que, embora bem executada por Sven Dirkschneider, teve sua força comprometida pela mixagem. O som ficou um pouco moderno demais, e o bumbo quase se perde no conjunto instrumental.

O maior ponto positivo deste álbum é que a banda Dirkschneider conseguiu manter a fidelidade máxima ao clássico original do Accept. Cada riff de guitarra, solo, linha de baixo e virada de bateria está perfeitamente reproduzido, o que é uma tarefa difícil de realizar, mas que foi alcançada com excelência. Andrey Smirnov, Fabian Dee Dammers, Peter Baltes e Sven Dirkschneider merecem todo o reconhecimento por isso!

Outro grande acerto foi a escolha dos convidados, com exceção de Joakim Brodén, que não se encaixou bem. Todos os outros artistas somaram de maneira significativa ao resultado final do disco.

Além disso, o vocal poderoso, agudo e clássico de Udo Dirkschneider merece destaque, pois, aos 73 anos, ele ainda canta como se estivesse em 1983, sem perder o carisma e a energia que o tornaram um dos maiores ícones do Heavy Metal.

Respondendo a pergunta: "Balls To The Wall Reloaded" é realmente necessário? Não, não é, mas vale a pena e é uma ótima homenagem.

Nota: 9,5




1996 - 2026: Há 30 Anos Os Ramones Faziam Seu Último Show

Realizada em Hollywood, a despedida da banda reuniu convidados especiais, entrou para a história do Rock e, três décadas depois, ainda despe...