quinta-feira, 2 de outubro de 2025

The Sisters Of Mercy transformam nostalgia e novidade em catarse coletiva em São Paulo

Entre hinos como “Temple of Love” e “Lucretia, My Reflection”, além de faixas inéditas, o público viveu uma experiência que reafirma a lenda da banda.

Por: Alessandro Costa.

A apresentação dos Sisters Of Mercy mostrou a relevância do grupo.
Fonte: Alessandro Costa

A apresentação, já considerada histórica, dos britânicos do The Sisters Of Mercy, no Tokio Marine Hall, em São Paulo, no dia 26 de setembro de 2025, foi um verdadeiro marco de celebração do pós-punk e também do gótico, ainda que o vocalista Andrew Eldritch sempre tenha rejeitado esse rótulo.

Criada em Leeds, Inglaterra, em 1980, a banda surgiu da parceria entre Eldritch e Gary Marx, tornando-se rapidamente uma referência no cenário alternativo. Com os vocais graves e melancólicos do frontman, guitarras intensas, baixo pulsante e a lendária bateria eletrônica batizada de Doktor Avalanche, o grupo construiu uma identidade singular, que os destacou no underground britânico. Nos primeiros anos, lançaram singles cultuados como “Alice” (1982), “Temple Of Love” e o EP “Reptile House (ambos de 1983), que já antecipavam o amadurecimento criativo do coletivo.

Em 1985, veio o álbum de estreia “First And Last And Always, consolidando seu nome na cena alternativa. Pouco depois, Eldritch assumiu o controle artístico e, com diferentes formações, lançou discos que se tornaram clássicos do gênero: “Floodland” (1987), marcado pelos hinos “This Corrosion” e “Lucretia, My Reflection”, e “Vision Thing” (1990), que trouxe uma sonoridade mais voltada ao hard rock, eternizando o sucesso “More”, sendo o último disco de estúdio lançado pela banda.

Apesar de não lançar material inédito em estúdio desde 1993, os Sisters Of Mercy continuam ativos, sustentado por uma base de fãs leais ao redor do mundo. Seus concertos mesclam sucessos de várias fases com composições novas ainda não registradas oficialmente, mantendo viva a aura sombria e magnética que tornou o grupo uma das formações mais influentes do rock alternativo.

O público brasileiro fiel aguardou ansiosamente pela entrada da banda no palco do Tokio Marine Hall.
Fonte: Alessandro Costa

Ao longo de mais de 20 passagens pelo Brasil, o grupo tem se apresentado com frequência no Tokio Marine Hall, localizado na Chácara Santo Antônio, em São Paulo, uma das principais casas de espetáculos do país, com capacidade para cerca de 4 mil pessoas. O espaço de 6 mil m² conta com palco amplo, camarins, estrutura de som e luz, áreas VIP, serviço de bar e acessibilidade completa, incluindo tradução em libras, audiodescrição e banheiros adaptados. Inaugurado originalmente como Tom Brasil, rebatizado depois como HSBC Brasil, passou a se chamar Tokio Marine Hall em 2022, quando a seguradora adquiriu os naming rights e investiu em modernização e projetos de inclusão cultural. Desde então, já recebeu milhares de atrações nacionais e internacionais, de música, teatro e humor, reunindo mais de 16 milhões de espectadores e consolidando-se como referência do entretenimento paulistano.

O público presente era bastante diverso, reunindo desde adolescentes em seus primeiros shows, como Winy, de 20 anos, e Abbi, de 36 anos, que capricharam em uma maquiagem branca com detalhes escuros, até pessoas que testemunharam o auge do Rock’n’Roll nos anos 70. O que mais chamou a atenção foi a quantidade de fãs devidamente caracterizados com vestimentas “góticas”: longos vestidos pretos, coturnos, maquiagem carregada e acessórios sombrios, ignorando completamente o fato de a própria banda não se considerar parte desse movimento.

Essa é a segunda vez que o 3 Pipe Problem fez a abertura de um show dos Sisters Of Mercy, a primeira foi em 2023.
Fonte: Alessandro Costa

A noite começou com a abertura da banda brasileira 3 Pipe Problem, que, cantando em inglês e carregando nas guitarras, empolgou o público que aguardava ansiosamente a atração principal. O ponto alto do set foi um cover enérgico de “Save A Prayer”, dos igualmente britânicos do Duran Duran, que arrancou aplausos calorosos dos presentes que cantaram junto em cada palavra.

Andrew Eldritch entregou uma performance íntima e poética.
Fonte: Alessandro Costa

Pontualmente às 22h, Ben Christo, integrante desde 2005, e o mais recente guitarrista, Kai (na formação desde 2023), surgiram à frente de Andrew Eldritch. Sob a trilha de introdução, o grupo abriu com a inédita “Don’t Drive On Ice”, que, mesmo fora de qualquer álbum ou plataforma digital, fez o público delirar diante da performance arrebatadora.

O grande destaque desta turnê são justamente as faixas novas que ainda não integram a discografia oficial. Além de “Don’t Drive On Ice”, o setlist trouxe “Crash And Burn”, “I Will Call You”, “Summer”, “But Genevieve”, “Eyes Of Caligula”, “Here” (em que Eldritch arriscou um “por aqui” em português), “Quantum Baby”, “On The Beach” e “When I’m On Fire”. Apesar do estranhamento inicial, todas foram recebidas com entusiasmo, como se já fizessem parte da memória afetiva dos fãs.

Mas o êxtase veio com os clássicos já consagrados, como “Doctor Jeep” emendada a “Detonation Boulevard”, a inoxidável “More”, “Dominion/Mother Russia”, “Marian”, “Giving Ground” (faixa pouco conhecida, lançada em 1986 no projeto paralelo The Sisterhood), “Temple Of Love”, além do bis arrebatador com “Neverland”, “Lucretia, My Reflection” e “This Corrosion”, que encerrou a noite em clima apoteótico.

O já veterano Ben Christo mandou riffs espertos e até assumiu o baixo durante a música “Neverland”.
Fonte: Alessandro Costa

A química entre os músicos e a presença de palco marcaram a apresentação. Apesar da fumaça e do espetáculo de luzes, Andrew, Ben e Kai mostraram-se conectados, interagindo de forma natural e entregando uma performance intensa e genuína.

Toda a atenção se concentrou no palco, os telões laterais foram desligados assim que a banda iniciou o repertório, reforçando a filosofia estética e conceitual preservada há mais de quatro décadas.

Kai mostrou estar bem conectado com o repertório e com o público.
Fonte: Alessandro Costa

E permanece a questão difícil de responder: como um grupo que não lança um álbum de inéditas desde 1990 consegue manter tamanha devoção em escala global? Nostalgia? A qualidade incontestável de um legado bem construído? A forma como suas canções ainda dialogam com diferentes gerações? Talvez seja tudo isso, e mais.

O que se sabe é que Andrew Eldritch é visto quase como uma entidade por seus seguidores — um poeta que traduz questões profundas de modo direto e único, e que ao vivo mantém sua presença magnética sem recorrer a artifícios, corridas ou exageros de palco.

Com o público inteiro cantando os versos de “This Corrosion”, os Sisters Of Mercy encerraram uma noite histórica.
Fonte: Alessandro Costa

Set list:

• Don’t Drive On Ice
• Crash And Burn
• Ribbons
• Doctor Jeep + Detonation Boulevard
• More
• I Will Call You
• Alice
• Dominion / Mother Russia
• Summer
• Giving Ground
• Marian
• But Genevieve
• Eyes Of Caligula
• Here
• Quantum Baby
• On The Beach
• When I’m On Fire
• Temple Of Love

Encore:
• Neverland
• Lucretia, My Reflection • This Corrosion

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