Depois de rupturas, hiato e mudança de integrantes, a banda apresenta um EP objetivo que preserva o DNA do Matanza clássico enquanto aponta para um novo capítulo de sua trajetória.
Por: Alessandro Costa
O Matanza Inc. chega ao EP Obscurantista depois de uma trajetória marcada por rupturas, recomeços e ajustes de rota, e esse contexto é essencial para entender o peso simbólico desse lançamento. O trabalho não surge do nada, sendo o ponto mais recente de uma linha do tempo que começa com o fim de uma das bandas mais emblemáticas do Hardcore brasileiro.
Em maio de 2018, o Matanza anunciou o encerramento de suas atividades após 22 anos de estrada, alegando questões pessoais, profissionais e artísticas que levaram os integrantes para caminhos distintos. Meses depois, em janeiro de 2019, parte da formação decidiu seguir em frente sem Jimmy London, o eterno vocal do Matanza, criando o Matanza Inc., então com Vital Cavalcante nos vocais. A proposta era clara, dar continuidade ao espírito do Matanza, sem simplesmente repetir fórmulas.
O disco de estreia veio ainda em 2019 com Crônicas do Post Mortem: Um Guia para Demônios e Espíritos Obsessores, álbum que estabeleceu a base estética e conceitual do projeto e circulou em CD e vinil no Brasil e na Europa. No mesmo período, a banda já ocupava palcos relevantes, como o Goiânia Noise Festival, e consolidava sua presença no circuito underground. Em 2022, o grupo aprofunda sua identidade com Retórica Diabólica, um álbum mais direto ainda, que confirmou o Matanza Inc. como algo além de um simples “pós-Matanza”.
A virada mais delicada veio em 2024, quando o vocalista Vital Cavalcante, o baixista Dony Escobar e o baterista Jonas Cáffaro deixaram a banda, levando a um curto hiato. O retorno acontece no mesmo ano, agora com Daniel Pacheco nos vocais, Marcelo Massa no baixo e Marcos Williams na bateria, ao lado do inoxidável Marco Donida, que passa a ser o único integrante remanescente da formação original do Matanza e do Matanza Inc. Em outubro de 2024, a nova fase é apresentada ao público com o single Presença Nefasta, que já sinalizava o caminho estético do EP que viria a seguir.
É nesse contexto de reconstrução que nasce Obscurantista, lançado em janeiro de 2026, em parceria com o selo Monstro Discos e primeiro trabalho completo do Matanza Inc. com a formação atual. Com cinco faixas, o EP preserva a identidade construída ao longo dos anos, bem como aponta para uma evolução natural da sonoridade: mais madura, densa e direta.
Musicalmente, o trabalho reforça o peso característico da banda ao combinar riffs agressivos, grooves sólidos e a já conhecida e clássica aproximação com elementos do country, agora apresentados de forma mais objetiva entre composição e interpretação. Liricamente, as ideias seguem em cena a crítica social, a ironia ácida e o desconforto diante de um mundo em constante colapso, que já são marcas históricas do universo do Matanza, aqui retrabalhadas com menos caricatura e mais amargura.
A produção, assinada por Marco Donida, com gravação de Rodolfo Duarte no High Five Estúdio e mix/master de Gabriel Zander, contribui para um som seco, direto e sem gordura. Cada faixa cumpre sua função dentro do conjunto, reforçando a ideia de um EP conciso, mas impactante, pensado como um bloco único.
Segundo o vocalista Daniel Pacheco, o trabalho foi pensado como um ponto de equilíbrio entre herança e futuro:
“Trabalhamos muito para preservar a alma do Matanza em cada uma dessas músicas, mas também tentamos trazer um respiro de novidade, olhando para frente e fazendo desse trabalho um pontapé inicial para um novo capítulo na história dessa banda que marcou e marca a vida de tanta gente. Espero, de verdade, que ao ouvir esse disco vocês encontrem o que procuram quando bate aquela vontade de ouvir um bom e velho countrycore, como só o MTZ sabe fazer.”
• Presença Nefasta - Foi a primeira música deste EP que se tornou conhecida do público. Com o típico deboche e bom humor característico do Matanza, a música é um barato. O vocal brutal de Daniel casa perfeitamente com os riffs brilhantes de Donida. Já é uma daquelas músicas que nascem clássicas. (Nota DEZ)
• Sangue Na Festa - Lembra alguns clássicos do Matanza, como Satânico e Saco Cheio e Mau Humor. É uma letra com a pegada sarcástica já tão conhecida e que é a marca registrada de Donida. Vale destacar a pedaleira dupla e bem discreta da bateria de Williams. (Nota DEZ)
• A Única Certeza Da Vida - Traz uma reflexão divertida e ao mesmo tempo sombria sobre a finitude da existência de tudo o que é vivo. Donida manda riffs espertos e que carregam esse sarcasmo genial que escorre pelas pontas de seus dedos. É importante observar que a música apresenta uma mensagem extremamente positiva: “por isso nunca saía da disputa, a morte é a única certeza absoluta, busque sempre uma saída, a morte é a única certeza que você vai ter na vida.” (Nota DEZ)


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