quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Um registro histórico: Golpe de Estado encerra trajetória com 'Último Golpe Ao Vivo'

Gravado no Santo Rock Bar, o disco lançado em 2025 eterniza a força do Golpe de Estado no palco e marca a despedida de Nelson Brito, último membro da formação clássica.

Por: Alessandro Costa



O disco foi lançado apenas em CD, preservando a valorização da mídia física.
Fonte: Alessandro Costa.

Lançado no final de 2025, Último Golpe Ao Vivo é um registro definitivo na história do Golpe de Estado. Gravado em 17 de dezembro de 2023, no Santo Rock Bar, em Santo André, o álbum não apenas captura a força da banda no palco, como carrega um peso simbólico incontornável: trata-se do último registro com Nelson Brito, baixista da banda falecido em julho de 2024, sendo assim o último lançamento oficial de uma das bandas mais importantes do Rock n’ Roll brasileiro.

Com um capricho especial, o álbum se mostra item fundamental para quem coleciona o legado do Golpe de Estado.
Fonte: Alessandro Costa.

A história do Golpe de Estado começa no fim de 1985, em São Paulo, quando o baixista Nelson Brito e o baterista Paulo Zinner tocavam no Fickle-Pickle. O projeto contou brevemente com o vocalista André Catalau, mas só ganhou forma definitiva com a entrada do guitarrista Hélcio Aguirra, então integrante do Harppia, de mod que o entrosamento foi imediato, levando Hélcio a se dedicar exclusivamente à banda. Em menos de um ano, já tocavam por teatros e bares da cidade e registravam seu primeiro disco, produzido por Luiz Calanca, do selo Baratos Afins.

O álbum de estreia, Golpe de Estado, chegou ao mercado em 1986 com uma concepção incomum: um lado do vinil em 33 rpm e o outro em 45. A ideia gerou confusão, e muitas rádios paulistanas chegaram a tocar Olhos de Guerra na rotação errada. No encarte, a banda deixava claro seu posicionamento ao afirmar que o nome Golpe de Estado não se referia a uma subversão política, mas a um ataque direto ao conformismo, à apatia e aos estados de espírito depressivos incompatíveis com o verdadeiro Rock.

Sem contrato com grandes gravadoras, a banda seguiu de forma independente. Forçando A Barra, lançado em 1988 novamente pelo Baratos Afins, contou com a participação de Arnaldo Antunes e Branco Mello, dos Titãs, na faixa Onde Há Fumaça, Há Fogo. Em seguida, Nem Polícia Nem Bandido, lançado em 1989 pela Eldorado, ampliou o alcance do grupo e rendeu convites para abrir shows de bandas como Jethro Tull e Nazareth durante passagens pelo Brasil. Já Quarto Golpe de 1991 consolidou o nome do Golpe de Estado no cenário nacional, trazendo Caso Sério, o maior sucesso da carreira do grupo até hoje, além de render apresentações abrindo para o Deep Purple quando tocaram em São Paulo.

A banda seguiu em evolução durante 1994 com Zumbi, seu primeiro lançamento em CD. O álbum marcou uma mudança estética e conceitual: a faixa-título teve letra escrita por Rita Lee, e ainda contou com a participação da cantora nos vocais. O grupo gravou sua primeira música em inglês, Slow Down, e incluiu versões de My Generation, do The Who, e Hino de Duran, de Chico Buarque. Apesar da boa recepção, problemas de planejamento da gravadora Eldorado limitaram a prensagem inicial a apenas 2.000 cópias, rapidamente esgotadas.

O primeiro registro ao vivo, 10 Anos Ao Vivo de 1996, marcou também a primeira grande mudança de formação. Catalau deixou a banda por problemas pessoais ligados às drogas, chegando a faltar a compromissos profissionais e às gravações de duas músicas em estúdio que entraram no disco. Rogério Fernandes assumiu os vocais em Todo Mundo Tem Um Lado Bicho e Cada Dia Bate de Um Jeito.

Com o breve retorno de Catalau em 1999, a banda voltou a se apresentar em grandes festivais. Já em 2003, Kiko Müller passou a assumir definitivamente os vocais, gravando o álbum Pra Poder, com produção assinada pela própria banda.

Em 2008, a música Real Valor, gravada originalmente no disco Quarto Golpe de 1991 ganhou destaque ao ser utilizada em um projeto social idealizado pela banda Porto Cinco2. A canção foi regravada e disponibilizada para download mediante contribuição financeira, com renda revertida à CUFA, contando também com o apoio de Catalau.

Com novas mudanças na formação em 2010, o baterista Paulo Zinner e o vocalista Kiko Muller deixaram a banda. Em 2011, o Golpe de Estado retomou o ritmo de shows e com formação nova, agora com Roby Pontes na bateria, e Dino Linardi nos vocais, e gravaram Direto do Fronte, registrado no estúdio Mosh em São Paulo, e com participação de Dinho Ouro Preto do Capital Inicial na faixa “Rock Star”. O lançamento veio pela Substancial Music, que posteriormente relançou versões remasterizadas dos discos Nem Polícia Nem Bandido, Quarto Golpe e Zumbi.

Em janeiro de 2014, a banda sofreu uma perda irreparável com a morte do guitarrista Hélcio Aguirra. Pouco tempo depois, o Golpe de Estado anunciou o encerramento das atividades, em comunicado assinado por Nelson Brito. A pausa, no entanto, não foi definitiva. Em 2016, a banda retornou com nova formação, tendo João Luiz nos vocais, Marcello Schevano na guitarra, Roby Pontes na bateria e Nelson Brito no baixo.

O retorno foi celebrado com o lançamento de 30 Anos Ao Vivo, registrado na Clash Club, que saiu somente em 2018, com participações especiais de Catalau, Rogério Fernandes e Andreas Kisser.
Vale lembrar que gravar um CD e DVD ao vivo já era um sonho antigo do saudoso guitarrista Hélcio Aguirra.

Após um hiato de dez anos sem discos de estúdio, em meados de 2022, o grupo lançou Caosmópolis, reafirmando sua relevância e capacidade criativa.

Todo esse percurso desemboca em Último Golpe Ao Vivo. A banda soa extremamente afiada e poderosa: Roby Pontes entrega uma bateria precisa, forte como um trovão, com clara influência de Eric Carr, do KISS. Marcello Schevano honra o legado de Hélcio Aguirra, reproduzindo riffs e solos com fidelidade, mas imprimindo identidade própria. João Luiz se mostra carismático e dono de um vocal poderoso, consolidando-se como o melhor cantor da banda desde o inigualável Catalau. Nelson Brito, por sua vez, desliza os dedos com precisão no contrabaixo, evocando em muitos momentos a pegada do lendário Geezer Butler, do Black Sabbath. Foi Nelson quem segurou a bandeira do Golpe de Estado por todos esses anos.

O disco preserva a energia crua e a qualidade técnica sempre presentes nos shows da banda. As participações especiais reforçam o caráter histórico do registro: Kiko Müller assume os vocais em Pra Poder e Paixão. Rogério Fernandes canta em Todo Mundo Tem Um Lado Bicho, Cada Dia Bate De Um Jeito e Forçando A Barra. Catalau retorna em momentos emblemáticos com Olhos De Guerra, Caso Sério e Velha Mistura. No encerramento, Kiko Müller e Rogério Fernandes se unem a Catalau e João Luiz para uma sequência final avassaladora com Não É Hora, Nem Polícia Nem Bandido e Noite De Balada.

Embora o show no Santo Rock Bar tenha incluído outras músicas, como Dias De Glória (com a participação de Catalau) e Libertação Feminina, elas ficaram fora do disco por razões não divulgadas. Ainda assim, o repertório é abrangente e reafirma a força de todas as fases da banda, passando por Caosmópolis, Quantas Vão, Underground, Zumbi e Moondog.

Encerrando definitivamente suas atividades em dezembro de 2025, após cerca de um ano e meio sem integrantes da formação clássica, o Golpe de Estado se despede com um álbum à altura de sua história. Último Golpe Ao Vivo é especial não apenas por ser o último disco da banda, mas por reafirmar a força de um repertório que resistiu ao tempo, às mudanças de formação e à falta de apoio do mainstream. Bandas podem encerrarem suas atividades, mas enquanto essas músicas continuarem sendo ouvidas, o Golpe de Estado seguirá vivo para sempre.


Faixas de Último Golpe Ao Vivo

  • Caosmópolis (2022)

  • Quantas Vão (1994)

  • Underground (1986)

  • Zumbi (1994)

  • Pra Poder (2004)

  • Paixão (1989)

  • Moondog (1988)

  • Todo Mundo Tem Um Lado Bicho (1996)

  • Cada Dia Bate De Um Jeito (1996)

  • Forçando A Barra (1988)

  • Olhos de Guerra (1986)

  • Caso Sério (1991)

  • Velha Mistura (1989)

  • Não É Hora (1989)

  • Nem Polícia Nem Bandido (1989) 

  • Noite De Balada (1989)


Discografia do Golpe de Estado

  • Golpe de Estado - (1986)

  • Forçando A Barra - (1988)

  • Nem Polícia Nem Bandido - (1989)

  • Quarto Golpe - (1991)

  • Zumbi - (1994)

  • 10 Anos Ao Vivo - (1996)

  • Pra Poder - (2004)

  • Direto do Fronte - (2012)

  • 30 Anos Ao Vivo - (2018)

  • Caosmópolis - (2022)

  • Último Golpe Ao Vivo - (2025)




terça-feira, 20 de janeiro de 2026

POP3 transforma o Blue Note em templo da memória e da potência da música brasileira

No primeiro grande show de 2026, Charles Gavin, George Israel e Henrique Portugal celebram clássicos do pop rock nacional com cumplicidade, carisma e reverência à boa música feita no Brasil.

Por: Alessandro Costa


     O POP3 começou o show super afiado, mandando "Vou Deixar" do Skank.
 Fonte: Alessandro Costa

Na noite de 17 de janeiro de 2026, o Blue Note São Paulo foi palco de um daqueles encontros raros que ajudam a explicar por que a música brasileira segue viva, relevante e emocionalmente potente. O POP3, power trio formado por Charles Gavin, George Israel e Henrique Portugal, abriu oficialmente o calendário de shows do ano com duas sessões, às 20h e às 22h. Acompanhamos a primeira apresentação, que já deixou claro: 2026 começou em altíssimo nível.
Ver três nomes fundamentais da história do Rock Brasileiro reunidos no mesmo palco é, por si só, um privilégio. Mais do que revisitar suas próprias trajetórias, o POP3 se dedica a exaltar a obra de outros grandes artistas nacionais, em um gesto de reverência, memória e celebração coletiva da boa música feita no Brasil.

Três histórias que se cruzam

         O carisma do trio foi o ponto chave para a verdadeira celebração da boa música brasileira.
Fonte: Alessandro Costa.

O peso simbólico do trio é incontornável.
•  Charles Gavin, eterno baterista dos Titãs, é um dos músicos mais respeitados do país, conhecido não apenas pela precisão rítmica, mas também por sua atuação como pesquisador e curador da música brasileira.
• George Israel, voz, saxofone e violão do Kid Abelha, traz consigo uma assinatura melódica inconfundível e uma relação direta com a canção pop urbana que marcou gerações.
• Henrique Portugal, tecladista do Skank, completa o trio com sua musicalidade refinada, groove elegante e domínio absoluto do teclado como instrumento de condução emocional.

No palco, essa soma se traduz em cumplicidade evidente, pois a sensação é de que eles não estão apenas tocando juntos, mas se divertindo genuinamente. O entrosamento é tão natural que qualquer pequena imperfeição técnica se dissolve diante do carisma, da entrega e da verdade artística que emana do grupo.

Além disso, o trio conta com o auxílio luxuoso de Miguel Bestard na guitarra, e Mauro Berman no baixo.

Um repertório de luxo

O setlist é um verdadeiro mapa afetivo da música brasileira, apresentando clássicos dos Titãs, Kid Abelha e Skank convivem com homenagens a Rita Lee, Cazuza, Paralamas do Sucesso e outros artistas fundamentais, em arranjos que respeitam as canções originais, mas ganham nova vida no formato enxuto e poderoso do trio.
Momentos como “Flores”, “Balada do Amor Inabalável”, “Garota Nacional” e “Brasil” foram recebidos com entusiasmo imediato, enquanto os medleys — como “Ska + Sonífera Ilha” e “Pintura Íntima + Homem Primata”, evidenciaram inteligência musical e senso de espetáculo.

Leoni e a memória afetiva coletiva

    Leoni permaneceu no Kid Abelha de 1981 até 1986.
Fonte: Alessandro Costa.

Um dos pontos altos da noite foi a participação especial super despretensiosa de Leoni, que é membro fundador do Kid Abelha e dos Heróis da Resistência, que subiu ao palco para interpretações memoráveis de “Lágrimas e Chuva”, “Alice (Não Me Escreve Aquela Carta de Amor)”, além de se juntar ao trio em “Pintura Íntima + Homem Primata”. Tudo aconteceu na base da memória, da vivência e da história compartilhada, um daqueles momentos em que o público percebe que está diante de algo único e irrepetível.

Começar o ano assim

Em clima de festa, o POP2 encerrou a primeira sessão da noite, por volta de 21:20.
Fonte: Alessandro Costa.


Mais do que um show, o POP3 entrega uma experiência de celebração da música brasileira, feita por quem ajudou a construí-la. Divertido, afetuoso, tecnicamente sólido e emocionalmente generoso, o concerto no Blue Note reafirmou a importância de valorizar artistas que seguem criando, reinterpretando e honrando esse repertório imenso que nos forma como público e como cultura.

Começar 2026 dessa maneira foi um privilégio. Que venham os próximos encontros, e que a boa música brasileira siga sendo celebrada com esse nível de respeito, alegria e verdade.

Obrigado, POP3. Saúde e sucesso! 🎹🎷🥁


Set List: 

• Vou Deixar
• O Nosso Amor A Gente Inventa
• Flores
• Te Ver + Go Back
• Balada Do Amor Inabalável
• Ska + Sonífera Ilha
• Resposta + Caleidoscópio
• Lágrimas e Chuva
• Alice (Não Escreva Aquela Carta de Amor)
• Eu Tive Um Sonho
• Rádio Blá
• Garota Nacional
• Brasil
• Pintura Íntima + Homem Primata
• Saideira

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

The Sisters Of Mercy transformam nostalgia e novidade em catarse coletiva em São Paulo

Entre hinos como “Temple of Love” e “Lucretia, My Reflection”, além de faixas inéditas, o público viveu uma experiência que reafirma a lenda da banda.

Por: Alessandro Costa.

A apresentação dos Sisters Of Mercy mostrou a relevância do grupo.
Fonte: Alessandro Costa

A apresentação, já considerada histórica, dos britânicos do The Sisters Of Mercy, no Tokio Marine Hall, em São Paulo, no dia 26 de setembro de 2025, foi um verdadeiro marco de celebração do pós-punk e também do gótico, ainda que o vocalista Andrew Eldritch sempre tenha rejeitado esse rótulo.

Criada em Leeds, Inglaterra, em 1980, a banda surgiu da parceria entre Eldritch e Gary Marx, tornando-se rapidamente uma referência no cenário alternativo. Com os vocais graves e melancólicos do frontman, guitarras intensas, baixo pulsante e a lendária bateria eletrônica batizada de Doktor Avalanche, o grupo construiu uma identidade singular, que os destacou no underground britânico. Nos primeiros anos, lançaram singles cultuados como “Alice” (1982), “Temple Of Love” e o EP “Reptile House (ambos de 1983), que já antecipavam o amadurecimento criativo do coletivo.

Em 1985, veio o álbum de estreia “First And Last And Always, consolidando seu nome na cena alternativa. Pouco depois, Eldritch assumiu o controle artístico e, com diferentes formações, lançou discos que se tornaram clássicos do gênero: “Floodland” (1987), marcado pelos hinos “This Corrosion” e “Lucretia, My Reflection”, e “Vision Thing” (1990), que trouxe uma sonoridade mais voltada ao hard rock, eternizando o sucesso “More”, sendo o último disco de estúdio lançado pela banda.

Apesar de não lançar material inédito em estúdio desde 1993, os Sisters Of Mercy continuam ativos, sustentado por uma base de fãs leais ao redor do mundo. Seus concertos mesclam sucessos de várias fases com composições novas ainda não registradas oficialmente, mantendo viva a aura sombria e magnética que tornou o grupo uma das formações mais influentes do rock alternativo.

O público brasileiro fiel aguardou ansiosamente pela entrada da banda no palco do Tokio Marine Hall.
Fonte: Alessandro Costa

Ao longo de mais de 20 passagens pelo Brasil, o grupo tem se apresentado com frequência no Tokio Marine Hall, localizado na Chácara Santo Antônio, em São Paulo, uma das principais casas de espetáculos do país, com capacidade para cerca de 4 mil pessoas. O espaço de 6 mil m² conta com palco amplo, camarins, estrutura de som e luz, áreas VIP, serviço de bar e acessibilidade completa, incluindo tradução em libras, audiodescrição e banheiros adaptados. Inaugurado originalmente como Tom Brasil, rebatizado depois como HSBC Brasil, passou a se chamar Tokio Marine Hall em 2022, quando a seguradora adquiriu os naming rights e investiu em modernização e projetos de inclusão cultural. Desde então, já recebeu milhares de atrações nacionais e internacionais, de música, teatro e humor, reunindo mais de 16 milhões de espectadores e consolidando-se como referência do entretenimento paulistano.

O público presente era bastante diverso, reunindo desde adolescentes em seus primeiros shows, como Winy, de 20 anos, e Abbi, de 36 anos, que capricharam em uma maquiagem branca com detalhes escuros, até pessoas que testemunharam o auge do Rock’n’Roll nos anos 70. O que mais chamou a atenção foi a quantidade de fãs devidamente caracterizados com vestimentas “góticas”: longos vestidos pretos, coturnos, maquiagem carregada e acessórios sombrios, ignorando completamente o fato de a própria banda não se considerar parte desse movimento.

Essa é a segunda vez que o 3 Pipe Problem fez a abertura de um show dos Sisters Of Mercy, a primeira foi em 2023.
Fonte: Alessandro Costa

A noite começou com a abertura da banda brasileira 3 Pipe Problem, que, cantando em inglês e carregando nas guitarras, empolgou o público que aguardava ansiosamente a atração principal. O ponto alto do set foi um cover enérgico de “Save A Prayer”, dos igualmente britânicos do Duran Duran, que arrancou aplausos calorosos dos presentes que cantaram junto em cada palavra.

Andrew Eldritch entregou uma performance íntima e poética.
Fonte: Alessandro Costa

Pontualmente às 22h, Ben Christo, integrante desde 2005, e o mais recente guitarrista, Kai (na formação desde 2023), surgiram à frente de Andrew Eldritch. Sob a trilha de introdução, o grupo abriu com a inédita “Don’t Drive On Ice”, que, mesmo fora de qualquer álbum ou plataforma digital, fez o público delirar diante da performance arrebatadora.

O grande destaque desta turnê são justamente as faixas novas que ainda não integram a discografia oficial. Além de “Don’t Drive On Ice”, o setlist trouxe “Crash And Burn”, “I Will Call You”, “Summer”, “But Genevieve”, “Eyes Of Caligula”, “Here” (em que Eldritch arriscou um “por aqui” em português), “Quantum Baby”, “On The Beach” e “When I’m On Fire”. Apesar do estranhamento inicial, todas foram recebidas com entusiasmo, como se já fizessem parte da memória afetiva dos fãs.

Mas o êxtase veio com os clássicos já consagrados, como “Doctor Jeep” emendada a “Detonation Boulevard”, a inoxidável “More”, “Dominion/Mother Russia”, “Marian”, “Giving Ground” (faixa pouco conhecida, lançada em 1986 no projeto paralelo The Sisterhood), “Temple Of Love”, além do bis arrebatador com “Neverland”, “Lucretia, My Reflection” e “This Corrosion”, que encerrou a noite em clima apoteótico.

O já veterano Ben Christo mandou riffs espertos e até assumiu o baixo durante a música “Neverland”.
Fonte: Alessandro Costa

A química entre os músicos e a presença de palco marcaram a apresentação. Apesar da fumaça e do espetáculo de luzes, Andrew, Ben e Kai mostraram-se conectados, interagindo de forma natural e entregando uma performance intensa e genuína.

Toda a atenção se concentrou no palco, os telões laterais foram desligados assim que a banda iniciou o repertório, reforçando a filosofia estética e conceitual preservada há mais de quatro décadas.

Kai mostrou estar bem conectado com o repertório e com o público.
Fonte: Alessandro Costa

E permanece a questão difícil de responder: como um grupo que não lança um álbum de inéditas desde 1990 consegue manter tamanha devoção em escala global? Nostalgia? A qualidade incontestável de um legado bem construído? A forma como suas canções ainda dialogam com diferentes gerações? Talvez seja tudo isso, e mais.

O que se sabe é que Andrew Eldritch é visto quase como uma entidade por seus seguidores — um poeta que traduz questões profundas de modo direto e único, e que ao vivo mantém sua presença magnética sem recorrer a artifícios, corridas ou exageros de palco.

Com o público inteiro cantando os versos de “This Corrosion”, os Sisters Of Mercy encerraram uma noite histórica.
Fonte: Alessandro Costa

Set list:

• Don’t Drive On Ice
• Crash And Burn
• Ribbons
• Doctor Jeep + Detonation Boulevard
• More
• I Will Call You
• Alice
• Dominion / Mother Russia
• Summer
• Giving Ground
• Marian
• But Genevieve
• Eyes Of Caligula
• Here
• Quantum Baby
• On The Beach
• When I’m On Fire
• Temple Of Love

Encore:
• Neverland
• Lucretia, My Reflection • This Corrosion

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