quinta-feira, 6 de agosto de 2026

1996 - 2026: Há 30 Anos Os Ramones Faziam Seu Último Show

Realizada em Hollywood, a despedida da banda reuniu convidados especiais, entrou para a história do Rock e, três décadas depois, ainda desperta sentimentos contraditórios entre os fãs.

Por: Alessandro Costa

Depois de uma pequena turnê no Lollapalooza, os Ramones fizeram sua última apresentação no Palace, em Hollywood.
Créditos: Internet

Há exatos 30 anos, os Ramones subiam ao palco pela última vez. Inacreditável... 30 anos!

No dia 6 de agosto de 1996, Joey, Johnny, Marky e C.J. Ramone encerravam uma das histórias mais importantes da música com um show de 32 músicas, realizado no The Palace, em Hollywood, na Califórnia.

A despedida contou com diversas participações especiais: Eddie Vedder, do Pearl Jam, dividiu o palco com a banda em Anyway You Want It, justamente a última música tocada pelos Ramones. Lars Frederiksen e Tim Armstrong, do Rancid, participaram de 53rd & 3rd, Listen To My Heart e We're A Happy Family. Participações positivas, mas desnecessárias.

O Motorhead gravou R.A.M.O.N.E.S. no álbum 1916 de 1991.
Créditos: Internet


Um momento verdadeiramente histórico foi a entrada de Lemmy Kilmister, lendário baixista e vocalista do Motorhead, que cantou R.A.M.O.N.E.S., música composta pelo próprio Motorhead como homenagem à banda nova iorquina. Chris Cornell apresentou o segundo bis da noite ao lado de Ben Shepherd, ambos do Soundgarden, que participou de Chinese Rock. Legal, mas igualmente desnecessários.

Dee Dee Ramone se desligou da banda em julho de 1989.
Créditos: Internet.


Mas, para mim, o momento mais emocionante e divertido foi a entrada inesperada de Dee Dee Ramone. Mesmo errando de propósito todas as partes de Love Kills, ele mostrou que pouco importava a perfeição técnica naquele momento, apenas respondendo: "Esse é o meu jeito." E talvez essa frase resuma muito bem quem era Dee Dee.

Na época, Joey Ramone já enfrentava o linfoma que tiraria sua vida em abril de 2001. Mesmo assim, a banda entregou um show intenso, que acabou sendo registrado no álbum ao vivo We're Outta Here!, lançado no ano seguinte.

Mas, apesar de toda a importância histórica desse show, eu sempre tive uma sensação estranha ao assisti-lo.

Os Ramones entraram na minha vida oito anos depois dessa despedida e, sinceramente, nunca tive a sensação de que eles realmente acabaram. Pelo contrário. Trinta anos depois, continuam influenciando bandas, conquistando novos fãs e cada vez mais vivos.

Talvez por isso eu sempre ache que eles mereciam uma despedida maior.

Na minha opinião, esse último show foi tratado de forma muito simples para uma banda daquele tamanho. A apresentação aconteceu em Los Angeles, quando, para mim, faria muito mais sentido que tivesse sido em Nova York. Era uma terça-feira comum, o The Palace sequer estava completamente lotado e nem mesmo o icônico cenário das colunas gregas, utilizado durante praticamente toda a última turnê, foi levado para aquele que seria o último capítulo da banda.

Também nunca gostei da produção audiovisual desse registro.

A direção de imagens é confusa, cheia de enquadramentos estranhos, closes aleatórios nos pés dos músicos, no público e até no rosto do Joey. A captação de áudio também está muito abaixo do que um momento histórico como esse merecia.

O último show dos Ramones foi lançado em novembro de 1997 no box com CD e VHS intitulado We're Outta Here!
Créditos: Internet

E o que mais me incomoda é pensar que, passados 30 anos, esse show nunca recebeu um lançamento em alta definição, com imagem reeditada e restaurada, e áudio remasterizado. Tudo o que existe até hoje deriva do VHS lançado em novembro de 1997.

Os Ramones mudaram a história do Rock e da minha vida. Influenciaram milhares de bandas, atravessaram gerações e continuam conquistando novos admiradores até hoje.

Por isso, acredito que sua despedida merecia um cuidado muito maior.

Ainda assim, independentemente das falhas da gravação ou da produção, aquele 6 de agosto de 1996 continua sendo um dos dias mais importantes da história do Rock.

Mas definitivamente não foi o fim do legado dos Ramones.

HEY HO LET'S GO!

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Set list - The Palace, Hollywood (06/08/1996)

• Durango 95
• Teenage Lobotomy
• Psycho Therapy
• Blitzkrieg Bop
• Do You Remember Rock 'N' Roll Radio?
• I Believe In Miracles
• Gimme Gimme Shock Treatment
• Rock 'N' Roll High School
• I Wanna Be Sedated
• Spider-Man
• The K.K.K. Took My Baby Away
• I Just Want To Have Something To Do
• Commando
• Sheena Is A Punk Rocker
• Rockaway Beach
• Pet Sematary
• The Crusher
• Love Kills (com Dee Dee Ramone)
• Do You Wanna Dance?
• Somebody Put Something In My Drink
• I Don't Want You
• Wart Hog
• Cretin Hop
• R.A.M.O.N.E.S. (com Lemmy Kilmister)
• Today Your Love, Tomorrow The World
• Pinhead
• 53rd & 3rd (com Lars Frederiksen e Tim Armstrong)
• Listen To My Heart (com Lars Frederiksen e Tim Armstrong)
• We're A Happy Family (com Lars Frederiksen e Tim Armstrong)
• Chinese Rock (com Ben Shepherd)
• Beat On The Brat
• Any Way You Want It (com Eddie Vedder)

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Catalau E O Último Golpe emociona público com primeiro show em São Paulo

Projeto reúne clássicos do Golpe de Estado, apresenta música inédita e confirma disco de estúdio para 2026

Por: Alessandro Costa


Catalau e Marcello Schevanno se mostram uma dupla e tanto.
Créditos: Alessandro Costa

Depois da estreia oficial no Santo Rock Bar, em Santo André, no dia 29 de maio, e da apresentação no Motor Rock Festival, em Cordeirópolis (SP), no dia 11 de julho, Catalau E O Último Golpe realizou, na última sexta-feira (31), seu primeiro show na cidade de São Paulo. A apresentação aconteceu no Sesc 14 Bis, que recebeu excelente público, e confirmou que o projeto já nasce com identidade própria, preservando o legado do Golpe de Estado e, ao mesmo tempo, apontando para novos caminhos.

Mais do que um show nostálgico, a noite mostrou uma banda extremamente entrosada, tecnicamente impecável e, principalmente, muito viva. O público respondeu desde os primeiros acordes de Onde Há Fumaça, Há Fogo, cantando praticamente todas as músicas e transformando a estreia paulistana em um encontro emocionante entre músicos e fãs.

Uma banda que honra o passado olhando para o futuro

A banda inteira possui uma energia sem fim.
Créditos: Alessandro Costa

Catalau E O Último Golpe reúne Catalau, vocalista que marcou a fase clássica do Golpe de Estado entre 1985 e 1996, ao lado do guitarrista Marcello Schevano e do baterista Roby Pontes, ambos integrantes da última formação do Golpe de Estado, além de Soneca, no contrabaixo, e Rafael Stanguini, nos teclados.

Cada integrante conhece profundamente esse repertório. Roby Pontes integra a história do Golpe desde 2011 e participou dos últimos discos e turnês da banda. Marcello Schevano assumiu a guitarra em 2016, após a morte de Hélcio Aguirra, ajudando a escrever o capítulo final da trajetória do grupo ao lado de Nelson Brito. Já Catalau, voz responsável pelos principais clássicos da banda, retorna agora para conduzir esse novo projeto, preservando a essência do Golpe de Estado sem abrir mão da criação de material inédito.

Emoção do começo ao fim

Foi uma noite emocionante para todos os presentes.
Créditos: Alessandro Costa

Logo nas primeiras músicas ficou evidente que a química entre os músicos é um dos grandes trunfos da banda. Catalau cantou em excelente forma durante toda a apresentação, alternando momentos de descontração, fazendo piadas com o público, com outros de forte emoção, como aconteceu depois de Caso Sério, em que o vocalista foi às lágrimas.

Em diversos momentos, o vocalista fez questão de agradecer o carinho recebido pelo público paulistano e não escondeu a felicidade por finalmente apresentar o projeto na capital.

Ao seu lado, Roby Pontes mostrou mais uma vez por que é um dos grandes bateristas do Rock Nacional, sustentando o show com precisão, peso e dinâmica. Marcello Schevano impressionou pela segurança nos riffs e solos, respeitando o legado construído por Hélcio Aguirra, e ainda imprimindo sua própria personalidade às músicas. Soneca, por sua vez, garantiu uma base sólida durante toda a apresentação.

Rafael Stanguini também teve papel importante durante todo o espetáculo. Seus teclados enriqueceram os arranjos, ampliaram a sonoridade da banda e reforçaram a potência das músicas ao vivo, contribuindo para uma apresentação ainda mais encorpada e equilibrada.

O resultado foi uma banda extremamente coesa, que soa muito maior do que um simples projeto de continuidade.

Clássicos, surpresas e música inédita

Repertório mostrou relevância e atualidade.
Créditos: Alessandro Costa

O repertório passeou por diferentes fases da carreira de Catalau e da história do Golpe de Estado.

Clássicos como Olhos de Guerra, Caso Sério, Paixão, Não É Hora, Velha Mistura, Dias de Glória, Real Valor, Forçando a Barra, Terra de Ninguém, Noite de Balada e Nem Polícia Nem Bandido foram recebidos com entusiasmo imediato pelo público.

Também houve espaço para Página 12, faixa presente no primeiro álbum solo de Catalau, lançado em 1997, e para Casa de Rock, clássico do Casa das Máquinas gravado originalmente em 1976, composto por Catalau ao lado da banda.

Outro dos grandes momentos da noite aconteceu com a execução de Só (Tô Mal Acompanhado), primeira música inédita apresentada pelo novo projeto. Muito bem recebida pelo público, a canção mostrou que Catalau E O Último Golpe pretende olhar para frente sem depender apenas da força de seu passado.

Disco novo já está em andamento

Além de guitarrista, Marcello Schevano produziu o último disco do Golpe de Estado.
Créditos: Alessandro Costa

Após o show, Marcello Schevano revelou, com exclusividade ao Discos Importantes, que a banda já trabalha na produção do primeiro álbum de estúdio e que o lançamento está previsto para acontecer ainda em 2026.

Catalau confirmou a informação e contou que o grupo vive um período de intensa criatividade.

Segundo o vocalista, seis músicas inéditas já estão prontas, resultado de um momento de grande produtividade vivido pela banda.

Durante a conversa, Catalau também falou sobre sua relação com a discografia do Golpe de Estado. Entre todos os trabalhos lançados pelo grupo, destacou Nem Polícia Nem Bandido de 1989, que considera um disco extremamente orgânico e que registrou a banda em um excelente momento artístico. O cantor também citou Quarto Golpe de 1991 como outro de seus trabalhos favoritos.

As declarações reforçam que o novo projeto não pretende apenas preservar uma história importante do Rock Brasileiro, mas também escrever novos capítulos.

Uma estreia que deixa grandes expectativas

Em excelente forma, Catalau E O Último Golpe fechou a noite com chave de ouro.
Créditos: Alessandro Costa

O primeiro show de Catalau E O Último Golpe em São Paulo deixou claro que o projeto nasceu sólido.

A banda demonstra respeito absoluto pela história construída ao longo de décadas, mas evita transformar o repertório em um exercício de nostalgia. Ao contrário, a presença de músicas inéditas e a confirmação de um novo disco mostram que existe um caminho criativo sendo construído.

Ao final da apresentação, ficou evidente que o público saiu do Sesc 14 Bis com a sensação de ter assistido ao começo de uma nova fase. Se depender da resposta calorosa da plateia, da qualidade dos músicos e da criatividade demonstrada até aqui, Catalau E O Último Golpe tem todos os elementos para construir uma trajetória própria sem jamais perder de vista o legado que lhe deu origem.


Set list — Sesc 14 Bis (31/07/2026)

• Onde Há Fumaça, Há Fogo
• Não É Hora
• Velha Mistura
• Dias de Glória
• Terra de Ninguém
• Página 12
• Filho de Deus
• Olhos de Guerra
• Só (Tô Mal Acompanhado)
• Ignoro
• Paixão
• Real Valor
• Caso Sério
• Casa de Rock
• Noite de Balada
• Nem Polícia, Nem Bandido • Forçando A Barra




quarta-feira, 1 de abril de 2026

Titãs celebram 40 anos de 'Cabeça Dinossauro' com noite histórica em São Paulo

Com o Espaço Unimed lotado, banda transforma o clássico em experiência viva e prova que sua urgência continua pulsando quatro décadas depois.

Por: Alessandro Costa

Lendária banda paulistana mostrou cumplicidade e foco na celebração do álbum mais importante de sua história.
Foto: Alessandro Costa

Na noite de 28 de março de 2026, não era só mais um show em São Paulo, havia algo diferente no ar. Do lado de fora e dentro do Espaço Unimed, na Barra Funda, a sensação era de reencontro entre gerações, memórias e um disco que nunca deixou de incomodar. Quando os Titãs surgiram para celebrar os 40 anos de Cabeça Dinossauro, ficou claro que não se tratava apenas de revisitar um álbum, mas de reviver um estado de espírito.

Cabeça Dinossauro: O Choque

Mesmo 4 décadas após o seu lançamento, Cabeça Dinossauro continua necessário.
Foto: Alessandro Costa


Para entender a força daquele momento, é preciso voltar a 1986, quando o Brasil vivia um período turbulento, ainda atravessando os últimos respiros da ditadura militar, em meio à frustração causada pela morte de Tancredo Neves. O clima era de desilusão, quase sem esperanças. Dentro da banda, o cenário também era de tensão, porque após o pouco sucesso do álbum Televisão, incompreendido pela gravadora e pouco trabalhado, havia um sentimento de desgaste, de ceticismo com a música e com a própria carreira.

Como lembraria o baterista Charles Gavin, o disco nasceu de um lugar de raiva, do mercado, da gravadora, de tudo. Esse estado emocional se somava a acontecimentos marcantes, como a prisão do vocalista Arnaldo Antunes e do guitarrista Tony Bellotto por porte de heroína em dezembro de 1985, que também influenciaram diretamente a mudança estética da banda. Mas essa virada não aconteceu de forma repentina, como apontam os próprios integrantes, os sinais dessa sonoridade mais pesada já estavam ali em músicas anteriores.

Em fevereiro de 1986, antes mesmo do lançamento, o vocalista Branco Mello já antecipava que o próximo trabalho teria um “rock mais seco, mais cru”, com um som “mais primitivo, mais visceral”. Era exatamente isso que viria a se concretizar, pois como observou Bellotto anos depois, aquela linguagem já fazia parte do DNA da banda, um encontro entre crítica, peso, punk, mas também elementos de reggae e funk. Para o coprodutor Pena Schmidt, Cabeça Dinossauro representava um ponto de equilíbrio entre duas forças: a busca pela perfeição fonográfica e a afirmação da rebeldia.

Havia também uma necessidade clara de identidade, uma vez que com oito integrantes, múltiplos vocalistas e sem uma figura central, os Titãs ainda buscavam uma forma definitiva, e Cabeça Dinossauro mudaria essa leitura.

Mesmo após críticas ao trabalho anterior do produtor e ex Mutante, Liminha, ele foi escolhido para produzir o disco. A intenção era clara: capturar no estúdio a energia crua que a banda já demonstrava ao vivo. O repertório já estava praticamente definido antes das gravações, que aconteceram de forma intensa e rápida, pouco mais de um mês no estúdio Nas Nuvens, localizado no Rio de Janeiro, após uma demo registrada em apenas dois dias em São Paulo.

A urgência também se refletia nos detalhes. AA UU foi a primeira faixa gravada, já testada nos palcos, enquanto O Quê fechou o processo, depois de uma semana de gravação. Algumas músicas passaram por mudanças mais profundas, como Família e a própria faixa final. Em A Face do Destruidor, o vocal foi registrado em um único fôlego, sobre uma base invertida. Bellotto, por sua vez, experimentava até na execução dos solos, alternando a palheta com um anel para criar efeitos percussivos na guitarra, como é o caso de Bichos Escrotos. Tudo ali apontava para experimentação, risco e entrega.


Cabeça Dinossauro rendeu o primeiro disco de ouro da carreira dos Titãs. A entrega aconteceu em dezembro de 1986, no camarim do antigo Projeto SP.
Foto: Rosane Medeiros.

A estética visual do disco também rompia padrões, a capa foi inspirada em um estudo de Leonardo da Vinci, “A expressão de um homem urrando”, enquanto a contracapa utilizava outro desenho do artista, “Cabeça Grotesca”. As imagens vieram diretamente do Museu do Louvre, substituindo reproduções de baixa qualidade que a banda possuía. Era uma escolha ousada, uma das primeiras capas do rock brasileiro a não trazer a foto dos artistas. Essa ideia marcou a estreia do tecladista e vocalista Sérgio Britto como autor de diversas capas de álbuns da banda.

As primeiras 30 mil cópias ainda contaram com um acabamento especial, em papel fosco e poroso, mais caro que o convencional, viabilizado pelo apoio da gravadora na época. O reconhecimento veio também no campo visual: em 1987, a capa foi premiada em um concurso dedicado às melhores artes de discos de rock.

Quatro décadas depois, tudo isso ainda reverbera.

Cabeça Dinossauro: O Legado

Sérgio Britto, Tony Bellotto e Branco Mello seguem mantendo o legado dos Titãs sempre vivo. Foto: Alessandro Costa

O início do show foi silencioso, mas poderoso: no telão, a carta de censura de Bichos Escrotos. Um documento antigo, mas que ainda causa desconforto, sendo o tipo de abertura que não precisa de explicação, só de presença. Era um lembrete de que Cabeça Dinossauro nunca foi apenas música.

No palco, Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto, ao lado dos guitarristas Alexandre de Orio e Beto Lee, e o baterista Mario Fabre, começaram a tocar o disco na íntegra. Sem discursos longos, sem firulas, só música, que veio com força, precisa, ensaiada, mas longe de ser fria. Havia peso, havia sujeira, e, principalmente, havia verdade. Era como se o tempo não tivesse suavizado nada.

Algumas mudanças deram novos contornos ao repertório: Bellotto assumiu vocais de músicas que marcaram outras fases da banda, como Igreja, Família e Estado Violência, ligadas a Nando Reis e Paulo Miklos, enquanto Britto trouxe intensidade renovada para canções como A Face Do Destruidor e O Quê que carrega a assinatura de Arnaldo Antunes. Não era tentativa de reproduzir o passado, mas de dar continuidade e celebrar.


Um dos melhores momentos do show: Branco Mello assumindo os vocais.
Foto: Alessandro Costa.

Se houve um momento em que tudo pareceu desacelerar, foi quando Branco Mello assumiu o centro da cena. Sua voz, hoje mais rouca, mais marcada, carrega cicatrizes e também força. Depois de enfrentar problemas sérios de saúde, ele não apenas cantava, se colocava ali inteiro. E o público sentia, não era sobre perfeição, era sobre verdade.

A parceria entre Alexandre de Orio e Beto Lee trouxe ainda mais densidade ao som, pois as guitarras vinham como uma onda constante, sustentando e tensionando cada música, ampliando o peso sem perder a essência, uma excelente homenagem ao legado do saudoso guitarrista Marcelo Fromer, falecido em junho de 2001. Na segunda parte do show, vieram surpresas que arrancaram reações imediatas, músicas menos óbvias, algumas há anos fora do repertório, como Armas Pra Lutar, Vou Duvidar e Eu Não Aguento apareceram como presentes para quem acompanha a banda de perto, mas que também funcionavam para quem estava ali pela primeira vez.

Sérgio Britto em um grande momento de explosão de energia.
Foto: Alessandro Costa

Na plateia, não havia um perfil único, gente que viveu os anos 80, jovens que conheceram o disco muito depois, curiosos, fãs antigos e muitos outros tipos. Todos cantando, cada um à sua maneira. Talvez seja esse o maior feito de Cabeça Dinossauro: ele não envelheceu porque nunca tentou ser confortável.

Ao final da noite, mais do que um show, ficou a sensação de atravessar algo, de lembrar ou descobrir que certos discos não pertencem ao passado, eles continuam acontecendo.

E as comemorações pelos 40 anos de Cabeça Dinossauro estão apenas começando.
Foto: Alessandro Costa


Set List:

• Cabeça Dinossauro
• AA UU
• Igreja
• Polícia
• Estado Violência
• A Face Do Destruidor
• Porrada
• Tô Cansado
• Bichos Escrotos
• Família
• Homem Primata
• Dívidas
• O Quê

• Será Que É Isso O Que Eu Necessito?
• Anjo Exterminador
• Armas Pra Lutar
• Canção da Vingança
• Vou Duvidar
• Eu Não Sei Fazer Música
• Diversão
• Nem Sempre Se Pode Ser Deus
• Eu Não Aguento
• Lugar Nenhum

• Desordem
• Flores

Titãs:
Branco Mello - Baixo e voz
Sérgio Britto - Teclados e voz
Tony Bellotto - Guitarra e voz

Músicos convidados:
Alexandre de Orio - Guitarra e vocais
Beto Lee - Guitarra e vocais
Mario Fabre - Bateria e vocais



quarta-feira, 18 de março de 2026

The Damned transforma luto em reverência em Not Like Everybody Else

Gravado às pressas e marcado pela ausência de Brian James, álbum de covers revisita influências da banda em um tributo direto, emocional e sem pretensão de reinvenção.


Por: Alessandro Costa


Not Like Everybody Else chega em um momento especial na carreira da lendária banda Punk.
Fonte: Spotify.

Mais do que um novo capítulo, Not Like Everybody Else é um gesto de despedida. Lançado em 23 de janeiro de 2026, o 13º álbum de estúdio do The Damned, importante banda formada na década de 1970 e sendo uma das mais influentes do movimento Punk. O disco funciona como um tributo direto ao guitarrista fundador Brian James, morto em março de 2025, e cuja ausência paira sobre todo o disco.

Gravado em apenas cinco dias no estúdio Revolver, em Los Angeles, e produzido por Mikal Blue, o álbum abandona a ideia de material inédito para revisitar canções que moldaram o gosto de James. O resultado é uma coletânea de covers que vai de Pink Floyd a The Kinks, passando por The Rolling Stones, este último com participação póstuma do próprio guitarrista em The Last Time, usando registros ao vivo de 2022.

Há algo de urgente e emocional nesse formato: menos reinvenção, mais reverência. Singles como There’s a Ghost in My House e See Emily Play reforçam essa ideia de homenagem direta, enquanto o repertório como um todo funciona meio que como um mapa afetivo da banda.

A volta do baterista Rat Scabies ao estúdio, pela primeira vez desde os anos 1990, ajuda a dar unidade ao projeto, que também carrega o peso simbólico de uma formação histórica reunida.

Faixa a faixa:

There’s A Ghost In My House: Funciona perfeitamente como faixa de abertura do disco. É divertida e tem uma levada super pra cima, mostrando que vem muita coisa interessante na sequência. Foi gravada originalmente por R. Dean Taylor. Nota DEZ.

Summer In The City: Preserva o bom clima, sendo interpretada de forma brilhante pelo vocalista Dave Vanian. Foi gravada originalmente pelo The Lovin’ Spoonful. Nota DEZ.

Making Time: Começa com um riff poderoso do Captain Sensible acompanhado pelo baixo de Paul Gray. É um dos melhores momentos do álbum. Foi gravada originalmente pelo The Creation. Nota DEZ.

Gimme Danger: Preserva a melancolia da versão original. Dave faz uma excelente interpretação, com a mesma energia de Iggy Pop. Foi gravada originalmente pelos Stooges. Nota DEZ.

See Emily Play: Provavelmente é o melhor momento do disco. Uma faixa pouco conhecida, gravada originalmente pelo Pink Floyd em 1968, se mostra bem fiel ao arranjo original e traz uma certa modernidade, poderia soar como algo totalmente inédito em 2026. Nota DEZ.

I’m Not Like Everybody Else: É outro grande momento melancólico, uma homenagem à um grande amigo. Foi gravada originalmente pelos Kinks. Nota 9.

Heart Full of Soul: Combina perfeitamente com a vibe do disco, é um momento muito interessante, especialmente pelas mudanças de andamento ao longo da música. Foi gravada originalmente pelos Yardbirds. Nota Dez.

You Must Be A Witch: Segura bem a vibe divertida das duas primeiras músicas do álbum. Faz o ouvinte querer sair pulando e dançando. Uma jóia. Foi gravada originalmente pelo The Lollipop Shoppe. Nota DEZ.

When I Was Young: Soando um pouco diferente da versão original do The Animals de 1967, mas preservando o espírito original, se mostra um dos momentos de maior liberdade dentro do disco. Foi gravada também pelos Ramones no álbum Acid Eaters de 1994. Nota DEZ.

The Last Time: Fecha o disco com total elegância, uma vez que é um dos maiores clássicos dos Rolling Stones. Foi gravada ao vivo ainda com a presença do falecido guitarrista Brian James. Nota DEZ.

Longe de ser um disco revolucionário, Not Like Everybody Else encontra sua força justamente na memória, sendo um álbum que olha para trás sem nostalgia vazia ou forçada, pois há mais respeito do que risco, mais afeto do que ruptura, e talvez seja exatamente isso que o torna relevante, não como reinvenção do The Damned, mas como um retrato honesto de quem eles foram e são, e de quem ajudou a construir essa história.


 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Augusto Licks revisita fase clássica dos Engenheiros do Hawaii em show especial em São Paulo

Guitarrista apresentou repertório marcante de sua passagem pela banda, em uma noite que reuniu fãs antigos e novos e mostrou que essas canções seguem vivas no coração do público.

Por: Alessandro Costa.

Depois de uma bem sucedida turnê ao lado do baterista Carlos Maltz, Augusto Licks segue em plena forma e mostrando boa energia no palco. Foto: Alessandro Costa.

Na noite de 6 de março de 2026, houve um reencontro entre passado e presente do Rock Brasileiro, o guitarrista Augusto Licks esteve em São Paulo para revisitar uma fase que marcou gerações: o período em que integrou os Engenheiros do Hawaii. O show aconteceu no Carioca Club e reuniu fãs de diferentes idades, desde quem acompanhou a banda nos anos 1980 e 1990 até um público mais jovem que conheceu essas músicas depois.

Os carismáticos Sandro Trindade (baixo e voz) e Ananda Torres (bateria) mostraram total domínio sobre o repertório clássico dos Engenheiros do Hawaii.
Foto: Alessandro Costa.

Licks fez parte do grupo entre 1987 e 1993, fase considerada por muitos admiradores como uma das mais criativas da banda e a mais clássica. Foi justamente esse repertório que guiou a apresentação, trazendo de volta canções que ajudaram a consolidar o grupo como um dos nomes importantes do Rock nacional.

Desde os primeiros acordes, a atmosfera era de nostalgia, pois a guitarra Steinberg branca de Licks, que ajudou a moldar a identidade sonora dos Engenheiros naquele período, voltou a ecoar com força no palco. O público respondeu à altura: muita gente cantando junto, celulares erguidos e aquela mistura de emoção e memória que costuma aparecer quando clássicos voltam à vida no palco.

Claro, houve alguns pequenos detalhes ao longo da apresentação, coisas normais em um show que busca recriar uma fase tão específica da carreira de um artista. Mas nada que atrapalhasse a experiência, pelo contrário: a banda mostrou segurança, boa dinâmica e conseguiu manter a energia do começo ao fim, conduzindo o público por um repertório que marcou época.

O formato enxuto de trio do grupo ajudou a valorizar as guitarras e os arranjos que caracterizaram aquela fase do trio original, recriando no palco a atmosfera que muitos fãs guardam com carinho. Para quem acompanhou a história da banda, foi quase como abrir um álbum antigo e reencontrar velhos amigos, e para quem chegou depois, foi a chance de viver ao vivo um capítulo importante do Rock made in Brazil.


Licks, Trindade e Torres mostraram complicidade especial no palco.
Foto: Alessandro Costa.


Ao final, ficou a sensação de missão cumprida, de modo que entre fãs antigos e novos, o show de Augusto Licks em São Paulo funcionou como um reencontro com músicas que atravessaram décadas, e que continuam encontrando relevância para quem cresceu, ou ainda cresce, ouvindo os Engenheiros do Hawaii.

Augusto Licks: Guitarra e vocal
Sandro Trindade: Baixo e voz
Ananda Torres: Bateria

Foi uma noite mais que especial para todos os envolvidos.
Foto: Alessandro Costa.

Set list:

• Toda Forma de Poder
• Tribos e Tribunais
• Sob O Tapete
• Variações Sobre Um Mesmo Tema
• Canibal Vegetariano Devora Planta Carnívora
• Muros e Grades
• A Conquista Do Espelho
• Túnel Do Tempo
• Terra De Gigantes
• Pra Ser Sincero
• Refrão De Bolero
• Curtametragem
• A Revolta Dos Dândis
• Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e Os Rolling Stones
• Alívio Imediato
• O Exército De Um Homem Só

• Parabólica
• Herdeiro Da Pampa Pobre
• Infinita Highway



1996 - 2026: Há 30 Anos Os Ramones Faziam Seu Último Show

Realizada em Hollywood, a despedida da banda reuniu convidados especiais, entrou para a história do Rock e, três décadas depois, ainda despe...