Com ingressos esgotados e casa lotada, banda apresentou seu álbum de estreia praticamente na íntegra e mostrou estar em ótima forma, em uma noite de perfeita sintonia com o público
Por: Alessandro Costa
No sábado, 12 de setembro, finalmente tive a oportunidade de ouvir essas músicas ao vivo. E é difícil explicar o que significa estar diante de Fabio Golfetti, Angelo Pastorello e Claudio Souza, ouvindo ao vivo canções que me acompanharam durante quase duas décadas.
Mais difícil ainda é perceber que elas continuam tendo exatamente a mesma força, ou talvez até mais, do que tinham quando foram ouvidas pela primeira vez.
O show aconteceu no Sesc Pompeia, em São Paulo, com ingressos esgotados e casa lotada. E o que se viu foi uma banda em ótima forma, extremamente entrosada e em perfeita sintonia com um público que conhecia cada detalhe daquela música.
Um disco diferente de tudo
Em 1987, enquanto o Rock Brasileiro já estava dividido entre a explosão das bandas que dominavam rádios e programas de televisão e a atmosfera mais sombria influenciada pelo pós-punk, o Violeta de Outono apresentava algo completamente diferente.
O primeiro álbum começava com um riff de duas notas, levemente desafinado, e logo mergulhava em uma sonoridade psicodélica que parecia vir de outro lugar.
O disco também trazia referências bastante particulares. Em entrevistas sobre o álbum, Fabio Golfetti já contou que o Violeta estava descobrindo sua própria sonoridade por meio de improvisações e jam sessions. No espaço de ensaio, conviviam referências como The Beatles, Pink Floyd, Gong, Milton Nascimento, Egberto Gismonti e Stravinsky.
"Tomorrow Never Knows", dos Beatles, foi escolhida para os primeiros ensaios e acabou funcionando quase como uma espécie de bússola para o grupo.
O resultado foi um disco que se tornou uma das principais referências da psicodelia brasileira.
E, quase 40 anos depois, ouvir esse repertório ao vivo deixa uma coisa muito clara: o primeiro disco do Violeta de Outono continua vivo.
De volta ao sesc pompeia
A relação do Violeta de Outono com o Sesc Pompeia também não começou no sábado.
A banda se apresentou pela primeira vez no espaço ainda em 1986 e, ao longo das décadas, o local acabou fazendo parte de diferentes momentos da trajetória do grupo.
Dessa vez, o retorno aconteceu em uma ocasião ainda mais especial: a celebração do relançamento do primeiro álbum da banda em vinil.
O disco está sendo relançado pela Melômano Discos e pela Voice Music, em edição com capa dupla e texto de André Barcinski. O lançamento oficial do LP aconteceu em 4 de setembro de 2026.
Créditos: Alessandro Costa
No palco, Fabio Golfetti assumiu guitarra e vocais, acompanhado por Angelo Pastorello no baixo e Claudio Souza na bateria. Em algumas músicas, o trio também contou com Gabriel Golfetti, filho de Fábio, que participou tocando teclados e violão.
Como ouvir o disco ao vivo
Créditos: Alessandro Costa
O grande mérito do show foi justamente não tentar transformar aquelas músicas em outra coisa.
A banda estava em ótima forma e conseguiu reproduzir no palco a atmosfera, os arranjos e a força que fizeram do primeiro álbum um trabalho tão especial.
Em determinados momentos, a sensação era simplesmente de estar ouvindo o disco exatamente da forma como ele foi gravado e como ele soa.
Só que agora aquelas músicas estavam acontecendo diante dos olhos.
E o público respondeu à altura.
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Era possível perceber uma sintonia muito grande entre banda e plateia. Não era simplesmente uma apresentação em que as pessoas estavam ali para ouvir músicas antigas. Havia uma relação afetiva muito forte com aquele repertório.
Para quem, como eu, passou anos ouvindo essas músicas sozinho, é uma experiência bastante difícil de descrever.
As homenagens a Arnaldo Baptista e Syd Barrett
Créditos: Alessandro Costa
O repertório também trouxe duas versões especialmente interessantes.
Jesus Come Back To Earth é uma composição do eterno Mutante Arnaldo Baptista. A versão apresentada pelo Violeta de Outono foi gravada especialmente para o álbum tributo ao músico, lançado neste ano.
Já Chapter 24 é uma composição do Pink Floyd, originalmente presente em The Piper at the Gates of Dawn de 1967, e ganhou uma versão do Violeta para um disco tributo a Syd Barrett, que será lançado ainda em 2026.
São escolhas que fazem bastante sentido dentro da trajetória do Violeta de Outono. Tanto Arnaldo Baptista quanto Syd Barrett representam diferentes caminhos da psicodelia e da experimentação que ajudaram a moldar a identidade musical da banda.
Um Clássico Que Continua Encontrando Novos Ouvintes
Créditos: Alessandro Costa
Quase 40 anos depois de seu lançamento, o primeiro disco do Violeta de Outono continua encontrando novos ouvintes e, principalmente, continua fazendo sentido.
Para mim, o show no Sesc Pompeia teve um significado ainda maior justamente por isso.
Em 2007, aos 13 anos, eu descobri uma banda que já tinha lançado seu primeiro disco havia duas décadas. No sábado, quase 20 anos depois de ter feito aquela descoberta, pude finalmente ouvir aquelas músicas ao vivo.
E elas estavam lá.
Outono, Dia Eterno, Declínio de Maio, Sombras Flutuantes, Tomorrow Never Knows...
As mesmas músicas. A mesma atmosfera. A mesma força.
Talvez seja justamente esse o maior legado do Violeta de Outono: fazer música que não parece pertencer a uma época específica.
O disco foi lançado em 1987, mas continua sendo descoberto, ouvido e celebrado em 2026.
E, diante de uma casa lotada, com ingressos esgotados e uma banda em plena forma, ficou bastante claro que o Violeta de Outono ainda tem muito a dizer.
Violeta de Outono pelos olhos de quem esteve lá
Créditos: Alessandro Costa
"Tenho uma relação muito especial com o Violeta de Outono. Esse foi meu quarto show e uma das melhores performances que assisti deles.
No período pós-pandemia, na época da retomada dos shows em 2021, assisti o Violeta no palco do Madame. Foi um show muito especial, marcante por estarem comemorando 35 anos de carreira. Hoje, eles comemoram 4 décadas de uma trajetória totalmente em paralelo ao mainstream, mas com muita competência, experimentalismo e originalidade.
A respeito do show, basicamente é o setlist da maioria dos espetáculos deles. Recentemente, vi alguns shows temáticos, pois relançaram álbuns dos anos 90 e 2000. Mas, o que aconteceu hoje foi realmente histórico.
Reproduzir o repertório clássico no lugar que foi o primeiro grande palco dos caras 40 anos depois traduz a magia que aquelas canções têm. Fora o encontro de três caras que conseguem produzir uma sonoridade única. Banda é a química gerada pela união de determinadas pessoas e essa química se traduz em uma sonoridade que não se parece com nada, mas que é a mais pura identidade daquela banda. E nada soa igual a essa formação em trio do Violeta de Outono. Lavei minha alma e espero que eles produzam coisas novas com o trio Fabio, Angelo e Cláudio."
Setlist - Sesc Pompeia (12/09/2026)
• Intro Tape
• Noturno Deserto
• Outono
• Trópico
• Luz
• Faces
• Jesus Come Back To Earth
• Chapter 24
• Jupiter
• Dia Eterno
• Declínio de Maio
• Sombras Flutuantes
• Tomorrow Never Knows
Bis:
• Retorno
• Astronomy Domine
• Em Toda Parte









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