quarta-feira, 4 de março de 2026

Days of Ash: o EP do U2 que se apresenta com urgência, mas não empolga de verdade

O novo EP do U2, Days of Ash, lançado de surpresa em 18 de fevereiro de 2026, chega carregado de intenção e discurso, mas, no fim das contas, não entrega o impacto que tanto promete.

Por: Alessandro Costa

O EP surge em um momento que, talvez, não fosse tão necessário, uma vez que a banda prometeu fazer um disco de Rock.
Foto: Spotify.

Longe de ser uma porcaria, Days of Ash também não é aquele retorno arrebatador que parte do público poderia esperar depois de nove anos desde o disco Songs of Experience. Aqui, o quarteto opta por um formato enxuto: seis faixas, cerca de 23 minutos, cinco músicas inéditas e uma poesia musicada. A ideia é forte, mas a execução nem tanto.

Bono explicou o espírito do lançamento ao dizer: “Essas faixas do EP não podiam esperar; essas músicas estavam impacientes para estar no mundo. São canções de desafio e desalento, de lamentação”. Ou seja, canções que nasceram com senso de urgência. E isso transparece, pois o EP gira em torno de tragédias contemporâneas e conflitos do mundo todo, retomando a veia política que marcou momentos importantes da trajetória da banda.

O problema é que mesmo com temas tão densos, poucas passagens realmente ficam na memória do ouvinte. Há sinceridade e indignação nas letras, mas as melodias raramente acompanham esse compasso. Em vários momentos, o EP soa mais discursivo do que musical, como se a mensagem tivesse vindo antes da canção, e não o contrário.

A recepção foi mista, porque alguns elogiaram o retorno à postura combativa e destacaram a urgência presente nas composições, especialmente em The Tears of Things, descrita como “melodicamente e estruturalmente bastante impressionante”. Outros observaram que o conjunto parece mais interessante como conceito do que como experiência sonora.

Faixa a faixa:

American Obituary - Crítica direta à morte de Renée Good em Minneapolis. Começa com um riff de guitarra do The Edge até que animado, no entanto, a canção perde boa parte de sua força no seu decorrer. O final arrebatador, repetidos incontáveis vezes como se fossem milhões de pessoas cantando em um estádio lotado, também não é muito empolgante. Nota 6.

The Tear of the Things - É uma faixa que funciona bem, começa mais arrastada e o vocal de Bono vai crescendo no meio dos violões de The Edge e a brilhante bateria de Larry Mullen Jr. Nota 8.

Song of the Future - É inspirada por histórias trágicas ligadas ao Irã e à Palestina. Tem uma introdução bem semelhante à diversas músicas criadas pela banda neste século: violão unido à um riff de guitarra cheio de efeitos. Não chega a animar tanto quanto deveria, apesar de ter um bom refrão. Nota 7.

Wildpace - Consiste em um poema de Yehuda Amichai transformado em peça atmosférica. Funciona basicamente como uma vinheta de 1 minuto e 18 segundos.

One Life At a Time - Faixa cheia de atmosfera e clima, bem característica do U2. Soa um pouco contida. Durante sua audição, a sensação é de que a música poderia ir para outros caminhos. Pelo menos, o solo de guitarra do The Edge é bem legal. Nota 6.

Yours Eternally - É uma parceria com Ed Sheeran e Taras Topolia, que tenta oferecer o momento mais acessível do trabalho, mas se mostra uma grande bobagem. Nota 4.

No fim, Days of Ash funciona quase como um registro emocional de um tempo conturbado. A intenção é legítima, o posicionamento é claro, mas a música raramente alcança o nível de grandeza que o próprio U2 já demonstrou ser capaz de atingir em tantos momentos gloriosos.

Não é um fracasso, como também também passa longe de ser um trabalho essencial.



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